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Crítica de 1,99

Negarei até a morte, mas há certo cabimento na acusação de que só vim morar em Santana por causa da abastança de lojinhas de 1,99 na região.

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

10 Outubro 2016 | 02h00

Entende-se aqui por “1,99” aquele tipo de estabelecimento comercial em que há enorme variedade de tranqueiras dispostas em prateleiras a preços diversos. Numa boa loja de 1,99, o cliente mais esclarecido encontra raquetes para matar mosquito, papas-bolinhas, tábuas de passar, flanelas, cabides, vasos, escovas de dente, cuecas e pipoca-doce, às vezes tudo amontoado na mesma seção e com a plaquinha “quebrou, pagou”.

Depois de um ano de intensa peregrinação pelos 1,99 do bairro, posso dizer com propriedade jornalística que o meu preferido é o Pais & Filhas (Rua Voluntários da Pátria, 1860), uma verdadeira butique do gênero, especializada em utensílios de cozinha. É uma loja de dimensões modestas, mas há certa sabedoria na escolha dos produtos em exposição. Eu diria que, em termos de estilo, o Pais & Filhas alcançou o estado da arte.

Já o Toda Casa (Voluntários, 2287) flerta com o lado chique das lojas de variedades – tem espelhos de corpo inteiro, fruteiras suntuosas de vidro e panelas de 300 reais –, mas já comprei tigelas ótimas lá e recomendo vivamente o setor de coadores.

No mesmo alto nível se encontra a Charles (Voluntários, 2129), onde há panelinhas esmaltadas muito graciosas e uma seção com taças de vinho de tamanhos indecentes. O ponto fraco fica por conta do setor de lixeiras, mas há certa compensação no âmbito das frigideiras de teflon.

Entre as lojas de grande porte destaco a Renascer (Voluntários, 1910), que tem um anexo só para brinquedos baratos, além de fileiras intermináveis de cestos para roupa suja, caixas de arrumação, carrinhos de compras com estampa de coruja, uma variedade exaustiva de relógios de parede, molduras e enfeites de resina.

O ponto alto da JC Marrach (Voluntários, 1998) é o sortimento de panos de chão; já o Real Santana (Voluntários, 1774) se destaca pela seção de fantasias e materiais para festas. É o 1,99 preferido da minha mãe. Eles possuem doze tipos diferentes de ralinhos e foi lá que conheci um perfeito para o meu tanque.

Tenho afeição pela ZW Presentes e Bijuterias (Voluntários, 1936), mas às vezes sou seguida por um funcionário que acha que vou enfiar tranqueiras nos bolsos e sair sem pagar – francamente, ninguém se interessa tanto por escorredores de macarrão. Costumo passar um tempo obsceno refletindo sobre os atributos de um produto, digamos, uma fruteira de R$ 10,49, e não raro sou obrigada a fazer nova peregrinação pelas lojas, ponderar as opções e por fim mudar de ideia, decidindo no meu coração que eu não preciso mesmo de uma fruteira.

Pode ocorrer de, sei lá, você comprar uma cobrinha menor do que a sua porta, o que aconteceu comigo uma vez, mas o pessoal do 1,99 respeita o Código de Defesa do Consumidor: eles fazem trocas. 

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