Crítica da arte ao nazismo

Pela primeira vez é exposta no Brasil série de 50 fotomontagens do alemão John Heartfield, de caráter político

SIMONETTA PERSICHETTI, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h07

Pela primeira vez, 50 fotomontagens produzidas pelo fotógrafo alemão John Heartfield (1891-1968) serão expostas no Brasil. A mostra ocupa de hoje até o dia 24 de fevereiro o Museu Lasar Segall, e coloca em pauta a imagem como discurso político nos anos 1930, em especial, crítica ao nazismo. Esse tipo de expressão, de misturar fotografia, texto e montagem nasceu, na verdade, na Alemanha, por volta de 1917, tendo sua base no movimento dadaísta.

Figurando nas vanguardas europeias, que começaram a questionar os cânones da pintura e da arte criadas até então, a fotomontagem apresenta também uma nova forma perceptiva já trazida pelos outros movimentos, como as colagens cubistas ou futuristas, que surgiram na virada do século 19 para o 20.

Momento esse em que as artes visuais se renderam à propagação dos meios de comunicação de massa, das revistas ilustradas e da possibilidade da rápida reprodutibilidade das obras. É importante também o papel da montagem e da influência do cinema. Aliás, os dadaístas, que pregavam uma transformação cultural, preferiam ser visto como engenheiros que criavam suas obras do que como artistas.

Designer gráfico e cenógrafo, influenciado pelos pintores Francisco de Goya e Pablo Picasso e pelo caricaturista Honore Daumier, Heartfield se juntou a outros dadaístas alemães, como Raoul Hausmann, Hannah Höch e George Grosz. E, embora tenha trabalhado antes com colagens e depois com a fotomontagem a partir da primeira década do século 20, será com a fotomontagem política, especialmente para criticar o nazismo, produzida com mais ênfase e maturidade a partir de 1930, que ele se firma como montador.

Membro do Partido Comunista alemão durante oito anos, até 1938, ele produziu 237 obras para a Arbeiter Illustrierte Zeitung, conhecida como AIZ, a revista do partido que a partir de 1936 passou a se chamar Die Volks Illustrierte, ou simplesmente VI.

Como explica no catálogo da mostra a professora Annateresa Fabris: "Além de configurar um novo sentido espacial com base em fragmentos heterogêneos, a fotomontagem política é uma clara resposta à revolução trazida pela reprodutibilidade técnica da imagem. Heartfield transforma os meios técnicos de reprodução em meios diretos de produção de obras de arte, ao fornecer a cada leitor de AIZ um original saído da rotativa. A dialética único/múltiplo cai por terra, já que, em cada exemplar da revista, havia uma obra original concebida por Heartfield e seus colaboradores."

As 50 fotomontagens da mostra, que pertencem ao acervo do Instituto Valenciano de Arte Moderna, são originais dessa época. Imagens que vão discutir de forma contundente o nazismo, trazendo por meio da criatividade de Heartfield uma leitura crítica da sociedade e da informação veiculada pelos meios de comunicação de massa, usando para isso a persuasão da imagem fotográfica associada a um texto.

Por meio da metáfora imagética, ele se torna crítico mordaz do discurso dominante da mídia. A fala por meio da imagem. Claro é que com a ascensão do nazismo, em 1933, ele deixou a Alemanha e foi para Praga. Em 1939 mudou-se para Londres, onde ficou até os anos 1950, retornando à Alemanha, onde permaneceu até sua morte.

"Artista profundamente engajado na realidade social, ele é figura determinante das vanguardas históricas, desenvolvendo normas práticas e artísticas, criando uma arte realista e crítica, uma expressão genuinamente política, a serviço da conscientização e do esclarecimento, sem resvalar no esquematismo e, pior ainda, numa ilustração meramente panfletária", define Annateresa Fabris.

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