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Crítica: Cineasta faz ode à rebeldia em 'Luz nas Trevas'

Longa-metragem estrelado por Ney Matogrosso, estreia neste fim de semana nos cinemas

Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2012 | 03h13

Luz nas Trevas é continuação ou diálogo com O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla? Talvez uma característica não anule a outra. Primeiro, por ser um legado de Sganzerla, na forma do roteiro que não pôde filmar (morreu em 2004). Segundo, porque a intuição que criou o primeiro Bandido, no ano em transe de 1968, não poderia deixar de recriá-lo em outra época, neste nosso paradoxal tempo contemporâneo. Paradoxal porque mais morno, mas não menos repleto de contradições do que aquele que viu nascer o primeiro Bandido.

Daí o diálogo cerrado do filme do presente com o do passado. Há trechos do Bandido da Luz Vermelha citados em Luz nas Trevas, como por exemplo quando o Luz, agora vivido por Ney Matogrosso, vê na TV da prisão a morte do seu personagem de outrora, interpretado por Paulo Villaça. Há outros signos cuidadosamente escolhidos: Djin Sganzerla, filha de Rogério e Helena, vive Jane, personagem da mãe no primeiro filme. Sérgio Mamberti usa o mesmo tom de Pagano Sobrinho para interpretar o corrupto. A voz gutural de Arrigo Barnabé reforça sua versão expressionista do policial.

André Guerra faz o filho do Bandido, que agora segue os passos do pai e se torna assaltante. No mais, vemos a fidelidade à inspiração de Sganzerla expressa na maneira como se filma, se monta e se introduz uma trilha sonora (Das mais inspiradas, aliás. Um dos grandes momentos é a interpretação de Ney, como caubói contemporâneo, de Sangue Latino, um dos seus sucessos). O diálogo com o Godard de Pierre Le Fou é total. Assim como a vocação de assimetria e descontinuidade, que fazem de Luz nas Trevas um desses objetos não identificados no panorama de atual caretice do cinema brasileiro.

É claro que a visão de Sganzerla sobre a marginália teria de ser reinterpretada. Talvez ela hoje tenha sentido diferente daquele de 1968. Então, era época não apenas de expressar o desespero político e existencial do 3.º Mundo, mas de romper com um cinema crítico considerado já pouco efetivo. Era o nascedouro do Tropicalismo, do intercâmbio entre as artes plásticas e o cinema (com Hélio Oiticica, por exemplo, homenageando o bandido Cara de Cavalo), e com o teatro de ruptura de Zé Celso. Todo esse flerte com o comportamento "à margem" fazia sentido num quadro de fechamento político. Daí a inspiração em João Acácio, o Bandido da vida real. E que sentido tudo isso terá hoje?

Será essa, talvez, a discussão mais interessante a ser trabalhada sobre o fundo desse belo filme. Ele expressa uma fidelidade total às ideias libertárias de Sganzerla e Helena Ignez. Uma noção pouco acomodada da rebeldia, daquele sentimento que não se conforma "com tudo o que aí está", mas nem por isso se dá ao trabalho de encontrar saídas. Escancara impasses, ao invés. E introduz o escracho lá onde a crítica se mostra inócua. Ataca, pelo riso e pela paródia. Ser rebelde é manter-se sempre jovem. Como se sabe, a rebeldia conserva seu valor de face e atravessa gerações sem sentir o peso dos anos. É uma fonte da juventude.

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