Daniela Nader/Divulgação
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Crítica: Alguns poemas de amor e uma canção desesperada

'Febre do Rato' flerta com utopia libertária mais afinada com anos 1970 do que com o clima de hoje

Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S.Paulo,

22 de junho de 2012 | 03h10

Sempre é preciso prestar atenção no que faz Cláudio Assis. Destoante numa cinematografia tendendo à forma burocrática e ansiosa pela inserção no mercado, o diretor pernambucano faz filmes porque precisa fazê-los. Numa ocasião disse: "Faço porque dói." O que dói? Muitas coisas: a vida difícil do lúmpen (Amarelo Manga), a violência contra a mulher (Baixio das Bestas) e, agora, em Febre do Rato, o viver poético que se choca contra o mundo abominavelmente careta.

Não são apenas os temas que fazem o cinema de Assis digno de nota. A ousadia formal, a intensidade de interpretação de seus atores, o realismo brutalista que às vezes incomoda - tudo isso torna seus filmes objetos de exceção no marasmo contemporâneo.

Febre do Rato, a partir do seu protagonista, o poeta Zizo (Irandhir Santos, ótimo) flerta com a utopia libertária mais afinada com os anos 1970 do que com o clima de hoje. Por isso temos a impressão de vermos um filme de época. Não é. Enraíza-se no Brasil e no Recife contemporâneos.

Esse anacronismo causa impressões contrastadas. Às vezes, sentimos a energia de um protesto juvenil. Outras, só a impotência de um murro em ponta de faca. Há, sem dúvida, beleza poética nessa canção sensual e desesperada. Mas, talvez, também o sintoma de fim de caminho, de um projeto que já realizou o melhor e não encontra alternativa para avançar senão o debater-se entre grades.

Avaliação do filme: Bom

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