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Crítica: Alexandre Lunsqui se destaca em concerto da Camerata Aberta

Primeira apresentação da temporada 2012 atrai excelente público ao auditório do Sesc Vila Mariana

O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2012 | 03h10

Primeira surpresa: aconteceu, com excelente público, o primeiro concerto de 2012 da Camerata Aberta, realizado no dia 4, no Sesc Vila Mariana. O espanto tem razão de ser. Ela perdeu, este ano, sua condição institucional e temia-se pura e simplesmente por sua extinção. No papel, ela de fato foi extinta. Agora, é apenas apresentada como "grupo estável de professores da Escola de Música do Estado de São Paulo - Tom Jobim". Espera-se que Marcelo Araújo, o próximo secretário de Cultura, devolva ao grupo uma condição institucional mínima e lhe conceda orçamento próprio. Pois, para viabilizar os magros seis concertos desta temporada, a Santa Marcelina buscou patrocínio do Banco Safra e manteve a sempre forte parceria com o Sesc.

Segunda surpresa: num programa de três peças onde dois nomes lustrosíssimos da música contemporânea pontificavam - os do italiano Salvatore Sciarrino, de 64 anos, e do argentino-alemão Mauricio Kagel (1931- 2008) -, o melhor momento ficou por conta de um brasileiro, Alexandre Lunsqui. Depois de dez anos em Nova York, e com estudos nas universidades de Iowa e Columbia nos EUA e Ircam em Paris, além da Unicamp no Brasil, Lunsqui, de 42 anos, mostrou todas as suas armas em Areia II, para nove instrumentistas. O hoje professor de composição da Unesp, ao lado de Flo Menezes, faz música de primeira qualidade; brinca com materiais de uma obra inacabada de Schoenberg, os Três Estudos para Orquestra de Câmera, de 1910. Mas esqueçam Schoenberg ou qualquer ranço passadista. A música de Lunsqui pulsa, cheia de vida e densidade. Já é um dos grandes nomes da música brasileira.

O título geral do concerto - Farsa para orquestra - remete ao teatro instrumental tal como Maurício Kagel concebeu e realizou em dezenas de obras memoráveis, ao longo de meio século de vivência europeia em Colônia entre 1957 e sua morte. Sua música trabalha processando e reprocessando as músicas do passado, num diálogo incendiário e sempre provocativo que jamais deixa de pôr os olhos no futuro. Kagel sempre rimou humor com rigor - e este talvez seja o seu diferencial. E também o aproxima demais do brasileiro Gilberto Mendes. Divertimento?, a peça de meia hora que ocupou a segunda parte, é uma versão de 'insider' do Ensaio de Orquestra de Fellini. Por momentos, senti a peça datada, apesar de ela ter sido escrita em 2006. Um pouco, quem sabe, pela pouca, quase nula intimidade dos músicos com a representação teatral. Lembrou-me uma conversa com o pianista Paulo Guimarães Álvares, que trabalhou com Kagel em Colônia por muitos anos. Dizia-me Paulo "Bartók" que Kagel era perfeccionista, era preciso ensaiar dezenas de vezes a parte teatral, porque ela era tão ou mais importante que os sons. Neste caso, muito mais importante era atuar do que tocar.

Num contexto tão extrovertido e musicalmente atraente (Lunsqui) e galhofeiro (Kagel), a peça de Sciarrino praticamente desapareceu. Arqueologia do Telefone, de 2005, usa com extrema parcimônia os sons. Não por acaso, Sciarrino já foi chamado de minimalista dos sons, por causa de sua meticulosidade com as dinâmicas, escrita e exploração de timbres. O tema dos males da tecnologia é bom. Mas uma música tão sutil como a de Sciarrino sucumbiu aos apelos muito mais fortes de Lunsqui e Kagel.

Crítica: João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

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