Crítica a todas as Guerras

Aos 27 anos, Tolstói já dizia que nelas nada havia de heroico

Rubens Figueiredo, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2012 | 03h08

Tolstói escreveu os Contos de Sebastopol em 1855, aos 27 anos. Era oficial na Guerra da Crimeia, quando a Inglaterra e a França se aliaram à Turquia para impedir que a Rússia consolidasse uma saída pelo mar para o Mediterrâneo. Antes, Tolstói havia escrito apenas volumes de memórias (Infância e Adolescência).

A palavra Contos do título nos sugere uma tradição e um formato literário. Mas não é isso o que encontramos nesses textos. Nem poderia ser de outro modo. Vindos da Europa, os formatos literários já chegaram prontos à Rússia. Não foram constituídos ali, em paralelo à história do país. A rigor, valiam como símbolos de uma sociedade tida como mais adiantada, de um processo de modernização que a Rússia almejava assimilar. Mas não foram só os formatos e as normas literárias que muitas vezes se sujeitaram a experimentos singulares nas mãos dos escritores russos. A própria literatura assumiu uma relação distinta com a sociedade. Era, talvez, o canal predileto para exprimir e pôr à prova questionamentos e expectativas que o país produzia com riqueza incomum.

Por isso é importante destacar a maneira como é construído o primeiro dos três contos, Sebastopol no Mês de Dezembro. Não há relato, protagonista, enredo. Mais parece uma reportagem, visualização gradual do que se passa, na qual o significado dos dados e a maneira como se relacionam não são enunciados. Como se manobrasse uma câmera, Tolstói nos convida a olhar e avançar por um território de todo estranho para nós. Logo fica claro que nada há de glorioso ou heroico nessa guerra. Ressaltam a crueza dos sofrimentos e a futilidade das ambições.

O apuro na observação dos detalhes concretos e o impulso para experimentar a perspectiva do outro indicam também um ânimo, ao menos em parte, semelhante ao de um antropólogo. Além disso, o conto é composto de tal modo que o leitor é repetidamente convocado a adotar a perspectiva de um observador participante dos eventos. A segunda pessoa, repetida em forma de cadência, integra o leitor ao conto num movimento duplo de aproximação e afastamento, que faz lembrar a célebre estratégia do estranhamento, que Tolstói vai empregar em textos posteriores.

A minúcia de Tolstói ao descrever as roupas dos soldados e as trincheiras lamacentas é a mesma com que descreve os últimos pensamentos de um homem no instante em que morre. Tais pensamentos não são apresentados de forma linear. Como aponta a tradutora Sonia Branco, Tolstói focaliza a consciência como processo, e não como resultado. Mas parece ser assim também que trata todo o resto: o que está fora da consciência e a relação entre a consciência com o mundo. De fato, não parece exagero supor que daí devem provir o dinamismo e a maleabilidade que deram tamanho alcance às obras de Tolstói.  TRADUTOR, ESCRITOR,  É AUTOR DE CONTOS DE PEDRO

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