Crítica: A delirante viagem sonora de Berio

Osesp oferece leitura irretocável da Sinfonia do compositor italiano

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO

29 de junho de 2013 | 02h23

"Sabemos que a música não pode diminuir o preço do pão, é incapaz de acabar ou iniciar guerras, eliminar favelas e a injustiça", ao contrário das manifestações de rua das últimas semanas. Ao menos, a música viva pulsa como o clamor das ruas, em sua radicalidade inovadora. A frase de Luciano Berio está num artigo inédito de Flo Menezes, seu ex-aluno, escrito para um volume coletivo sobre compositores do século 20 prestes a sair na França. Flo inova na análise da Sinfonia de Berio de 1968 para octeto vocal e orquestra. Encomendada por Leonard Bernstein para a Filarmônica de Nova York, foi interpretada, quinta na Sala São Paulo, pelos Swingle Singers, Osesp e Marin Alsop.

É importante ouvir a Sinfonia hoje. É quase um oratório (e me baseio no artigo de Flo), "um discurso sobre as minorias, fundado na referência a um músico que queria abraçar o mundo: Mahler". Delirante viagem sonora de sons e textos, respira o espírito libertário do maio de 1968. Um mosaico com textos de James Joyce, Lévi-Strauss (sobre o mito das águas dos índios brasileiros no primeiro movimento) e Beckett misturados com citações de Bach, Beethoven, Debussy, Schoenberg, Boulez e da Sinfonia nº 2 de Mahler e um tributo a Martin Luther King.

É mais ou menos como "ler" auditivamente o mundo nas suas dimensões mais heterogêneas. Berio se autodefine como um "diretor de cinema": "A melhor maneira de analisar e comentar uma coisa é, para um compositor, fazer algo de novo utilizando o material do que deseja analisar e comentar". Atenção: fazer algo novo a partir de materiais heterogêneos não é clonar as músicas populares, como reza até agora a cartilha neonacionalista osespiana.

Antes de reger a Sinfonia, Alsop comentou seus aspectos-chave, regeu fragmentos. Criou-se a predisposição favorável. Ação decisiva quando a música é contemporânea. Por isso o público se ligou.

Pode ter sido seu primeiro gesto como recém-nomeada diretora musical, o que faz prever exercício mais firme de liderança na condução da Osesp e de seus repertórios. Ainda assim, não dá para entender a sobreposição de tarefas com a direção artística; mais fraturas à vista na estrutura da instituição?

Ao concerto. O programa foi concebido para ser apresentado em outubro, em Londres. Tem uma virtude básica: elimina o monopólio do "neonacionalismo verde-e-amarelo", expressão cunhada pelo compositor Leonardo Martinelli em artigo no Estado: inclui um brasileiro importante que não é Villa-Lobos. Guarnieri merece. Sua Sinfonia nº 4 é excelente.

Entre Guarnieri e Berio, as Danças Sinfônicas de West Side Story completam o retrato estético de Lenny: irresistíveis, nasceram como musical da Broadway e "transfiguram-se" nesta suíte que esbanja uma extraordinária orquestração. Depois de uma primeira parte "redonda", a Sinfonia de Berio recebeu sua mais qualificada execução já realizada no país. Estranhamente, Alsop descartou as flautas solistas locais; preferiu "importar" uma de sua orquestra de Baltimore só para solar na Sinfonia aqui e em Londres. Mas a performance foi irretocável. Inclusive graças aos impecáveis Swingle Singers.

OUVIR É COMO "LER" AUDITIVAMENTE

O MUNDO EM TODAS AS DIMENSÕES

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