Critérios nebulosos em evento bem-intencionado

Mostra paulistana retira produção amadora de seu contexto

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2011 | 00h00

A Ribeirão Preto Cia de Dança encerrou domingo, no Teatro Paulo Eiró, a programação Dança em Sampa 1ª edição, boa iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Seis companhias se distribuíram por 5 semanas de programação nos teatros que a Prefeitura mantém na cidade. Foi produzido um folheto único, que informa que o intuito é o de "dar acesso" e "revelar a dança como uma ótima opção de entretenimento cultural". Todavia, sequer informa os autores das duas coreografias mostradas pela Ribeirão Preto Cia. de Dança - desperdiçando uma oportunidade importante de distribuição de informação.

Pode parecer um detalhe, mas talvez seja mais do que isso, porque revela todo um contexto de limites difusos entre o ambiente profissional e o escolar, do qual essa companhia pode ser tomada como uma referência. Explicita uma situação que se espalha pelo Brasil, e que se relaciona com o que vem sendo produzido aqui, nas últimas três décadas, pelos festivais de escolas de dança que proliferam no nosso País. A matriz de todos eles foi o Enda, que começou explicando, com clareza, do que se tratava - Encontro Nacional de Dança Amadora - mas que, a certa altura, curiosamente suprimiu o "amadora" de seu nome, começando a nublar, tanto para o público como para os próprios envolvidos, a diferença entre um bailarino (um trabalhador profissional) e um estudante de dança.

Neste caso, trata-se de mais um grupo ligado a uma escola privada que ambiciona profissionalizar-se. Mas, nele, há algo a ser destacado. Escolheu estampar a sua cidade no nome, e como esse é um hábito das companhias oficiais, permite ser tomada como uma delas. Embora não o seja, deixa claro que elegeu esse tipo de perfil para seguir, e que já tem uma referência nesse caminho: o Balé da Cidade de São Paulo. A ligação se materializa, inclusive, nos autores das coreografias mostradas, pois Liliane Grammont (Sobre Nós) e Fernando Martins (Fora de Si) foram bailarinos do Balé da Cidade.

Vem de lá o seu entendimento de coreografia a partir de uma certa métrica entre passo (de dança) e compasso (da música), e também a postura do bailarino em cena. Mas vem dos festivais de escolas de dança o papel do figurino e da música e, sobretudo, a relação entre vocabulário, fraseamento e trilha sonora. Nada disso constituiria problema, caso fosse assumido e desenvolvido como proposta em um circuito específico, hoje inexistente, dedicado a grupos que, como ele, buscam o padrão profissional com condições de alcançá-lo. Seus bailarinos se mostram engajados, e dançam com todo o empenho. O que falta são políticas públicas capazes de pavimentar a passagem do mundo dos festivais para a vida profissional com a dignidade que esse populoso segmento da dança merece.

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