Cristina Oiticica colhe elogios em Paris

Cristina Oiticica iniciou com pé direito a trajetória como artista plástica em Paris no último fim de semana: sua primeira exposição, Casa do Tempo, de quadros, objetos e instalações no Centro Cultural Franco-Brasileiro (perto do Museu Picasso, no Marais), está sendo bem recebida pelo público e pelos críticos e já mereceu reportagem da TV francesa de maior audiência (TF-1). O fato de a maioria das obras em exibição, num total de 20, terem sido adquiridas pelos visitantes (em média US$ 500 cada) nos dois primeiros dias confortou bastante a artista. "Não é o dinheiro que me interessa ", esclarece, "mas o reconhecimento de meu trabalho por aqueles que pagam para tê-las em sua intimidade."Dentro do imaginário de sua arte, impregnado pelos signos de representação da vida, da fecundidade, da espiritualidade materna, da "poética do feminino" (sem as conotações panfletárias do feminismo ideológico), Cristina tomou como fonte de inspiração para as criações ora apresentadas em Paris o quadro de Botticelli Nascimento de Venus. Nessa releitura do pintor italiano, ela usou para a composição dos quadros técnicas mistas. Partindo da foto inicial de Nascimento de Venus, ela passa pela pintura em repetidas camadas ("tal como na Idade Media"), pelo uso do computador, colagem, impressão em papel de arroz, ploter e xerox. Sem serem transformadas, as cores originais de Botticelli foram realçadas pelo verniz, pela purpurina e pelo betume, que "dá transparência às formas".Aos objetos de arte, trabalhados com as mesmas técnicas, Cristina acrescentou os símbolos da vida que mais lhe tocam - as pérolas em colares ou dispostas em conchas (como Botticelli as representa, aliás), projeções de ninhos, de casas, de formas evocativas de "uma poética do íntimo feminino". Nas seis instalações, sob a forma de pêndulos, que completam o acervo da mostra, o visitante reencontra as sugestões de berço, nascimento e vida.Na introdução do catálogo da mostra, a crítica de arte Risoleta Córdula destaca a maturidade estética e reflexiva com que Cristina Oiticica reintepretou a obra de Botticelli. A mesma opinião teve o pintor Juarez Machado, radicado em Paris e antigo professor de desenho da artista na Escola de Belas Artes do Rio: "Por dominar, hoje, com segurança e descortino a linguagem visual e saber traduzir com encanto feminino as emoções que exaltam a vida, Cristina alcançou na criação o estágio superior. Agora, só precisa de uma coisa - tornar seu talento mais conhecido no mundo por meio de novas exposições." Suas mostras internacionais precedentes ocorreram em Londres, Nova York e Madri.

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