Cristiana Reali interpreta Tennessee

A primeira cena surpreende - o público, acostumado ao rosto de traços finos e perfeitos e aos trajes elegantes, não reconhece, quando entra no palco, a atriz Cristiana Reali, símbolo da campanha da empresa de cosméticos Lancôme: vestida vulgarmente e com um vocabulário nada exemplar, ela é Maggie, a derrotada de Gata em Teto de Zinco Quente, clássico de Tennessee Williams, que estreou na semana passada, no teatro Renaissance, em Paris, abrindo a temporada de fim de ano.Trata-se de um momento decisivo na vida da atriz brasileira, que mora desde os seis anos na França, onde vem construindo uma sólida carreira teatral. Maggie é um papel maldito nos palcos franceses, desde que a crítica arrasou a versão cinematográfica, filmada em 1958, por Richard Brooks. Os críticos não perdoaram a atuação de Elizabeth Taylor, justamente como Maggie."A comparação é inevitável, mas esse não é um papel que pertença a apenas uma atriz", comenta. "Sei o que me espera, mas tenho muito que aprender; não podia recusar a chance de interpretar Maggie por tratar-se de um papel mítico." A ousadia é necessária, acredita Cristiana, principalmente se o risco envolve personagens clássicos."Sei que muitas pessoas ficam chocadas com minha personagem, mas Maggie é extremamente feminina ao defender o marido, rir e xingar ao seu modo, defender o direito de ter filhos e, principalmente, ao confessar seu prazer em fazer amor", conta Cristiana, que destaca Tennessee Williams como seu autor preferido. "As mulheres, em suas peças, são um desafio apaixonante para qualquer atriz."A decisão de Cristiana atraiu a atenção da imprensa francesa. O jornal Le Figaro, por exemplo, dedicou-lhe a capa de seu caderno cultural na semana passada, destacando a decisão da atriz em não contentar-se em ser apenas uma mulher atraente.Técnica liberada - Interpretar uma mulher vulgar não significa apenas um rompimento com uma imagem estabelecida por um belo rosto - Cristiana finalmente se sente à vontade para utilizar seus recursos como atriz, livrando-se de técnicas impostas em outros clássicos. "Quando interpretei Hamlet, senti-me presa a um estilo; em "Gata...", já estou mais liberada, com permissão para experimentar e expressar melhor as emoções."Cristiana também não vai trabalhar ao lado do marido, Francis Huster, respeitado ator, diretor e dramaturgo francês com quem dividiu o palco nas últimas montagens. Huster, porém, não estará distante - na mesma semana em que a brasileira estreou como Maggie, ele iniciou temporada do monólogo Adoro a Vida, de Octave Mirbeaux, em uma sala de espetáculos justamente ao lado do Renaissance, o Porte de San Martin. "Segui o exemplo de Cristiana e também procurei diversificar ao trocar o drama pela comédia", explica.As cenas cômicas escritas por Mirbeaux, crítico literário do fim do século passado, amigo de Émile Zola, contrastam com o denso texto encenado por Cristiana e Huster, na temporada passada - Duo Pour un Violin Seul (Duo para um Violino, em tradução literal, um jogo de palavras que, no idioma francês, tem duplo sentido e soa também como Duo para um Violoncelo) trata do desespero de uma violinista que, acometida por uma esclerose múltipla (doença sem cura e fatal), fica presa a uma cadeira de rodas e procura a ajuda de um psicanalista.Apesar de jovem para o papel (nos Estados Unidos, foi interpretado pela veterana Anne Bancroft), Cristiana foi indicada para o prêmio Molire, o mais importante do teatro francês. "Foi uma consagração ao meu trabalho, que, apesar do auxílio de Huster, sempre foi construído sem benefícios", comenta a atriz, que interpretou desde clássicos do teatro francês, como O Misantropo, de Molire, até comédias como A Pulga Atrás da Orelha, de George Feydeau. "Não queimei etapas e comecei fazendo figuração até chegar a esse momento, em que estou segura para interpretar um papel como Maggie."

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