Crises familiares em Manhattan

Na comédia Dois Dias em Nova York, fotógrafa recebe a visita dos parentes dias antes da abertura de sua exposição

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2013 | 02h07

Atriz, cantora, roteirista e diretora, Julie Delpy tem trabalhado com diretores importantes (Krszystof Kieslowski, Jean-Luc Godard), mas tornou-se conhecida do grande público principalmente pela série Before, que fez com Ethan Hawke e direção de Richard Linklater. O primeiro filme deu à dupla de atores o Oscar de roteiro original e Antes do Amanhecer também ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim. Vieram depois Antes do Por do Sol e Antes da Meia-Noite, cuja estreia internacional foi na Berlinale deste ano (talvez tenha sido o filme cujos ingressos se esgotaram mais rapidamente, quando foi iniciada a venda ao público).

Julie possui a própria série Dois Dias e, depois de Dois Dias em Paris, propõe agora Dois Dias em Nova York. Entre ambos, fez Le Skylab, que tinha no elenco, entre outros, a grande Emannuelle Riva, de Hiroshima Meu Amor, a obra-prima de Alain Resnais, e Amor, de Michael Haneke, um dos filmes mais premiados dos últimos anos. Dois Dias acompanha a mesma personagem, Marion, interpretada pela diretora e roteirista. Logo de cara, uma animação resume o que ocorreu com ela após Dois Dias em Paris.

Marion agora está em Nova York. É fotógrafa, vive com Chris Rock. Quando ela faz uma exposição de seu trabalho, a família vai ao seu encontro e pai, mãe, o grupo todo já estava em Dois Dias em Paris e Skylab. Dois Dias em Nova York talvez não seja um bom filme. É certamente menos bom do que Dois Dias em Paris, mas, pegando carona nas cotações de Leonard Maltrin em seu guia, poderia ganhar duas estrelas e meia (num total de cinco). Existem coisas que são muito interessantes, e uma delas é o fato de a família se instalar num apartamento minúsculo, onde todo o mundo passa a viver apertado, acirrando os conflitos.

Nos filmes que escreve e dirige - menos A Condessa, sobre a origem feminina do mito de Drácula -, Julie Delpy tem sido comparada a Woody Allen, um pouco pelo humor e pelos diálogos, outro tanto pela exposição frente às câmeras, mas principalmente porque fala de neuroses urbanas. É verdade que Nova York - o território por excelência de Woody - talvez esteja mais no título do filme que na tela, porque Julie reduz as paisagens de cartão postal. Existem boas observações sobre os personagens, como o efeito que a pressão familiar provoca em Chris Rock. Pelas diferenças culturais, todos parecem tão loucos que, lá pelas tantas, ele duvida da própria relação. O melhor de tudo é que Julie não é egocêntrica. Não escreve nem filma para o próprio brilho. Chris Rock cria um personagem mais complexo do que em outras comédias. O melhor de Dois Dias em Nova York passa por ele.

JULIE DELPY ATUA E DIRIGE, MAS

QUEM BRILHA É O ATOR CHRIS ROCK

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