Fabio Stachi/Divulgação
Fabio Stachi/Divulgação

Crise obriga teatro a buscar alternativas de produção

Mesmo com leis de incentivo e autorizações para captar, produtores não conseguem verbas

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

20 de outubro de 2013 | 22h13

Para fazer Tribos, seu mais recente espetáculo, Antônio Fagundes não recorreu a nenhum investidor. “Decidimos não buscar patrocinadores tampouco inscrever a montagem nas leis de incentivo”, disse o ator, em entrevista à época da estreia.

O senso comum nos faz crer que nunca faltarão empresas interessadas em associar seus nomes a certos artistas, dotados de fama e projeção. Mas não é essa a realidade que atores e diretores, sejam eles globais ou não, têm encontrado nos últimos meses.

Mesmo com leis de incentivo aprovadas e autorizações para captar em mãos, muitos produtores não estão conseguindo verbas. “Fácil nunca é. Mas esse tem sido um ano particularmente ruim”, aponta Fernando Cardoso, produtor do monólogo Prof. Profa. “Com o atual modelo, ficamos atrelados às empresas e seus lucros. Então, é claro que sofremos quando elas não estão indo tão bem”, Protagonizada por Jandira Martini, a obra não conseguiu recursos. E, após uma temporada no Sesc, reestreia nesta semana no Teatro Eva Herz.

De acordo com pesquisa divulgada na última sexta-feira pelo IBGE, a cultura foi o setor econômico mais afetado do País pela crise de 2009. E os empregos na área foram reduzidos em 15,6%. Com dinheiro apertado, a opção, em inúmeros casos, tem sido levantar espetáculos com recursos próprios. Mas essa é uma escolha que, obviamente, atinge as produções de maneiras distintas. E pode mostrar-se especialmente cruel para alguns. “Temos 25 atores em cena e 40 espectadores na plateia. Não tem como pagar a conta com o dinheiro dos ingressos”, observa o diretor Rodolfo García Vázquez, que não conseguiu financiamento para o espetáculo Édipo na Praça, do grupo Satyros.

A situação não é privilégio de São Paulo. No Rio, o documentário Correspondência Secreta – Teatro de Bolso tenta entender como funciona o modelo de autofinanciamento e quais as alternativas em um cenário em que a demanda é muito maior do que oferta de recursos. “É um meio válido de viabilizar projetos”, pontua Fabiano Cafure, diretor do documentário. “Mas não acho que essa deva ser uma forma permanente de produzir. A criação independente tem que servir para abrir portas para outros trabalhos remunerados.”

Em cartaz com o espetáculo Natal de Harry, o ator Marat Descartes compartilha da opinião. “Dá para continuar existindo se alternarmos os dois modelos: trabalhando em projetos maiores, com patrocínio, e também apostando em soluções mais caseiras”, diz ele. “É claro que é arriscado, mas vale a pena para quem quer ser visto. Aí você faz na cara e na coragem.”

Para Marcelo Marcus Fonseca, diretor do Teatro do Incêndio, lidar com os riscos não é a exceção, mas a regra. “Edital é loteria. Não dá para cruzar os braços e ficar esperando”, observa ele, que lança uma mostra que reúne três novos espetáculos. “É tudo o que temos para vender, nossos corpos, nossa arte. Então, estamos fazendo isso.”

Mesmo quando se lançam pelo caminho independente, muitos artistas têm a expectativa de conquistar patrocinadores para suas obras. Débora Olivieri, que estreou recentemente o monólogo Rosa, engrossa essa corrente: “Essa é minha primeira produção, mas estou confiante de que vamos conseguir sensibilizar alguém”. Apenas para trazer a São Paulo o espetáculo, que já havia cumprido temporada no Rio, a atriz conta já ter desembolsado R$ 70 mil. Apesar de manter a esperança, ela diz que as perspectivas para 2014 não são animadoras. “Temos todas as leis aprovadas, mas nada conseguimos captar. Ninguém está interessado. Nos disseram que preferem investir na Copa e na Olimpíada.”

Diferenças à parte, uma constante parece ser a percepção de que a bilheteria pouco ou quase nada importa nessa equação. “É um sistema cruel, em que sucesso não quer dizer necessariamente dinheiro”, pontua o produtor Fernando Cardoso. “No formato de hoje, com esses custos, não é possível sobreviver da renda dos ingressos.”

Diretor do espetáculo No Exit - Entre Quatro Paredes (que também não conseguiu captar), Caco Ciocler conta que já entra no jogo com pouca expectativa de reaver o que foi investido. “O que faço é criar condições para minha sobrevivência em outros lugares, para não ter que fazer isso no teatro. Para que ele seja um lugar sagrado para mim. Mas claro que não é todo mundo que pode fazer isso”, comenta.

Leis de Incentivo

Mesmo com autorização para captar, muitos espetáculos não têm conseguido encontrar patrocinadores

Falta de dinheiro?

Crise econômica é uma das justificativas. A proximidade da Copa do Mundo e da Olimpíada – foco de interesse dos investidores – é outra

Bilheteria

Os altos custos de produção, que incluem o aluguel dos teatros e a necessidade de verbas para propaganda, tornaram praticamente inviável sobreviver de bilheteria

Possibilidades

Apresentar o trabalho para conseguir sensibilizar um patrocinador ou utilizar recursos angariados em outros projetos

Nova sala reúne boa safra de espetáculos sem financiamento

Um dos maiores entraves a quem quer fazer um espetáculo, mas não tem dinheiro em caixa, é o preço do aluguel de uma sala. A diária mínima, em um teatro de médio porte, é de cerca de R$ 3 mil – valores inflacionados pela onipresença das leis de incentivo durante os últimos anos.

Nesse panorama, o teatro CIT - Ecum veio suprir uma lacuna e tem se firmado como reduto das produções independentes. Lá, os artistas não pagam um valor prévio. Dividem a renda arrecadada com a bilheteria: 60% para o grupo, 40% para a administração do teatro.

O modelo parece trivial. E é, de fato. Mas foge à regra atual. “Fazemos essa aposta junto às companhias”, diz o curador da instituição, Ruy Cortez.

Inaugurado em fevereiro, o Centro Internacional de Teatro - Ecum ocupa o antigo Teatro Coletivo, na Rua da Consolação. O espaço nasceu com forte motivação pedagógica: servir de ponto de encontro para oficinas, cursos e leituras. Mas também tornou-se conhecido por lançar uma programação contínua de espetáculos, de terça a domingo.

"Queremos criar uma relação de confiança com o espectador. Para isso, a qualidade dos espetáculos é essencial”, aponta Cortez. “A cidade tem um modo de produção voltado às estreias, à novidade.” O Ecum segue na contramão. Vai atrás de espetáculos que já estrearam e seleciona o que há de relevante na cena paulistana – e de outras cidades – reunindo essa oferta em um mesmo local.

A aposta na fidelidade do público toma outros países como modelo. “Em Buenos Aires, existem teatros assim, onde as pessoas sabem que podem ir e encontrar uma boa peça”, diz Cortez. “Mas é um projeto a longo prazo. Para que dê tempo do espectador vir, gostar e voltar.”

Conseguir sobreviver com os próprios recursos ainda é difícil. Mas alcançar a sustentabilidade está no horizonte da casa. “Buscamos esse equilíbrio entre nosso desejo e aquilo que é viável”, observa o curador. Ao selecionar montagens que conseguem boa resposta do público, é possível cobrir os custos de produções que não possuem o mesmo apelo. É o caso do Jogando no Quintal – espetáculo de improviso que faz sucesso há 11 anos – atualmente em cartaz na casa. “Dá para fazer isso, ganhar aqui para gastar lá”, pontua Cortez. “Só não dá para abrir mão da qualidade. Cair no ‘varejão’ e ir atrás de propostas puramente comerciais.”

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