Crise de Xuxa põe a Globo em perigo

Há relacionamentos que parecem eternos, mas que um dia, para a perplexidade do público, se desmancham. Foi assim quando os Beatles anunciaram ao mundo que não seriam mais quarteto. Surpreende agora a separação de Xuxa e Marlene Mattos depois de duas longas e proveitosas décadas. Os motivos do rompimento estão centrados, dizem, na divergência sobre o rumo do barco. A apresentadora quer reconectar-se aos baixinhos, enquanto Marlene quer sua estrela militando em frentes mais adultas. A verdade é que o pau comeu. Com um pouquinho de bom senso, quem conhece as bases do relacionamento entre as duas acharia inevitável esse final. A criatura está cortando o cordão que a ligava à criadora. Aqui entre nós, Xuxa já está bem grandinha para continuar a obedecer às ordens sem questionar. Quem juntou a dupla nos anos 80 foi Adolpho Bloch, dono da TV Manchete. Xuxa era sua top model querida, por isso era presença obrigatória em quase todas as edições das revistas da Editora Bloch. Ele a colocou para animar o Clube da Criança, programa dirigido por Maurício Shermann, que tinha por assistente a maranhense Marlene Mattos. Xuxa se deu muito bem. Além do prestígio com o dono da casa, ela contava com as orientações do namorado, Pelé. Foi contra a vontade dele que se mudou para a Globo com Marlene Mattos. Não há dúvida de que o olhar de Marlene foi mais longe do que o de Pelé. E ela foi atrás de tudo que vislumbrou. Sob seu pulso firme, Xuxa tornou-se marca, programas, discos, filmes e um monte de cacarecos que há anos fazem a cabeça das crianças. O resultado do esforço pode ser medido em números: uma fortuna de US$ 100 milhões, 21 empresas autorizadas a fabricar produtos Xuxa, 20 CDs, 11 filmes, 19 milhões de discos vendidos... Usando o molde desenhado por Marlene, outras aspirantes à fama e fortuna fizeram carreira. Mas Xuxa sempre foi a original, a "rainha". O reinado de Xuxa foi cercado de todos os cuidados por Marlene. Assim, como já foi explicitado publicamente pelas duas, a empresária pensava e Xuxa fazia. Os tempos, no entanto, são outros. Os programas imaginados por Marlene e executados por Xuxa envelheceram. A TV e o telespectador mudaram, mas o Planeta Xuxa continua igual. Além disso, hoje há uma concorrência competente e uma melhor distribuição da audiência. O show, que nos anos 80/90 estourava, desfruta agora de um ibope mediano. Em maio de 2000, o Planeta registrava média de 18 pontos (na Grande São Paulo). Um ano depois, chegava a 21, no mês passado não passou dos 15 pontos. Em período de vacas gordas, ninguém perde tempo com conflitos. Mas, quando há perda de terreno, as estratégias têm de ser repensadas. Essa avaliação pode ter gerado a ruptura. Se Xuxa está garantida financeiramente e com uma carreira sólida, Marlene também não corre perigo: tem novos negócios, um bom lugar no organograma da Globo e outros artistas para trabalhar. A insegurança fica para a emissora. Por mais que a audiência não seja a dos velhos tempos, a dobradinha Marlene/Xuxa ainda funciona - no vídeo e no faturamento. A independência pode ser saudável pessoalmente para a apresentadora, mas é um risco para a Globo. E como ela manifesta querer voltar ao passado (fazer programas para os baixinhos, diz), é capaz de enrugar ainda mais o seu show repetindo o velho esquemão e espantar mais público. Também pode haver uma surpresa. Como Xuxa nunca pôde mostrar o que tem na cabeça, suas idéias sobre programação são uma incógnita. Se a Globo confiar, pode ser a grande chance de a rainha mostrar que sabe ser ventríloquo e não só o boneco.

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