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Crise de confiança

A credibilidade é o oxigênio do jornalismo, o cinismo um beijo de morte

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2016 | 02h00

Nova York - Sabem quem tem números de popularidade abaixo dos de Dilma Rousseff nos Estados Unidos? A mídia jornalística. Apenas 6% dos norte-americanos responderam ter bastante confiança na mídia, que assim encosta na infâmia do Congresso, há muito no desterro da popularidade de um dígito. A nova pesquisa foi feita pela agência Associated Press em parceria com dois institutos de pesquisa.

Os números confirmam como a explosão digital de fontes de informação desestabilizou a relação de confiança entre o público e o jornalismo. Enfrentando a saturação, o público ficou mais desconfiado. Vejamos: 90% responderam que a precisão é muito importante e que esperam da mídia a apuração de fatos com rigor. É uma boa notícia? Claro que sim. A credibilidade é o oxigênio do jornalismo, o cinismo um beijo de morte. Outra boa notícia foi o desejo de equilíbrio da cobertura expressado nas respostas. Nos Estados Unidos, isto reflete também uma preocupação das minorias de verem suas questões incluídas em reportagens.

Um aspecto importante e até hoje pouco examinado foi o peso de fatores característicos da era digital na impressão que o internauta tem de uma publicação: O quanto os anúncios são intrusivos, a navegabilidade do site, o tempo para abrir um link e até a capacidade de atualização. O que não deve ser exatamente uma surpresa. Quem, ao ler um texto alentado sobre um assunto que leva a sério, não reage com desgosto quando pula à sua frente a imagem em close-up de um abscesso cuja remoção sai bem baratinho, numa clínica em Deus Me Livre? A interferência visual dos anúncios no texto foi criticada por 63% dos entrevistados.

Os desafios para o jornalismo só aumentam. A rede social vai ocupando território, em ritmo acelerado, como principal fonte de notícia. Mas, entre os consultados na pesquisa, só 12% responderam dar grande crédito à informação que encontram no Facebook. Mesmo se consideramos que o algoritmo do site de Mark Zuckerberg conspira para tornar seu mundo mais estreito, oferecendo ao internauta apenas confirmações de seus preconceitos e preferências e lhe direcionando para internautas que gravitem em seu círculo imediato de interesse, a pesquisa mostra o que poderia representar um começo de reação. Entre os céticos informados via Facebook, 66% revelaram que testam a veracidade da notícia, conferindo a fonte da publicação. Quatro entre dez norte-americanos responderam que se lembram de um caso recente em que perderam a confiança numa fonte de notícias, principalmente por erro factual ou percepção de que a fonte foi tendenciosa.

Não tenho dados estatísticos para especular o que uma pesquisa semelhante haveria de apurar no Brasil. Tenho dados anedóticos, como internauta e navegadora da rede social. Suspeito que ainda estamos distantes de uma reação ao consumo de notícias que reflita mais independência e agência individual.

Reagindo à pesquisa, um luminar da velha mídia, Carl Bernstein, da dupla de repórteres que revelou o escândalo Watergate, foi severo. Ele argumentou, na CNN, que o leitor/ouvinte/espectador deveria exercer mais independência e não procurar zonas de conforto informativo. E foi igualmente crítico até da rede que o exibia. A única saída, disse, é continuar investigando e não servir o que gera cliques, tentar adivinhar o que o público quer.

Numa coluna crítica da noção difundida sobre Hillary Clinton – ela seria desonesta – Nicholas Kristof, do New York Times, lembrou: “Um dos perigos do jornalismo é a tendência do cérebro humano de fazer a triagem de informação em narrativas”. O problema das falsas narrativas, ele escreve, é que elas vão adquirindo vida própria, alimentadas pelo constante fluxo de nova informação para confirmá-las. Como isto é verdade na enxurrada de narrativas que atravessa o Brasil.

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