Criolo volta a Londres e emociona o público

Cantor divide palco com o pai do jazz etíope Mulatu Astatke

THAIS CARAMICO, ESPECIAL PARA O ESTADO / LONDRES, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2012 | 02h08

Quatro meses depois de dividir o palco com Mulatu Astatke em Londres, Criolo volta à capital britânica para mais uma performance ao lado do mestre vibrafonista etíope. "Eu ainda estou tentando entender o que está acontecendo, vir para a Europa duas vezes no ano e cantar ao lado dele", disse ao Estado na tarde de domingo, horas antes da apresentação.

É como se a música Mariô, que abriu o show no Koko, antigo teatro no bairro de Camden Town, estivesse batizada. Da letra Atitudes de amor devemos samplear / Mulatu Astatke e Fela Kuti escutar, o poeta urbano e rapper de voz comovida olha para o alto, segreda palavras e devolve tudo o que sente em vibração intensa. A admiração, no entanto, vem das duas partes. Um dia antes do show, Mulatu já comemorava nas redes sociais, despedindo-se de Paris e dizendo que não via a hora de se juntar ao brasileiro.

Criolo não só retorna a Londres e divide o palco com o pai do jazz etíope, como engata sua maior turnê europeia: seis países até o dia 8, quando encerra no Porto, Portugal. Dentro dessa agenda apertada, a apresentação de domingo veio com bônus. Pontualmente às 20 horas e com sorriso garrido e piscadela aos fotógrafos, quem abriu a noite foi Mulatu, que subiu e fez brilhar com seus clássicos os três andares da casa. Depois de uma hora e meia ele deu lugar a Criolo, que seguiu com sua banda (com Dj Dandan sempre ao lado) e só parou para chamar Mulatu de volta à cena.

Tomado de emoção do começo ao fim, Criolo abriu com Mariô e sacudiu com Subirusdoistiozin. Encheu os brasileiros de orgulho com Sucrilhos e impressionou com Para Mulato, soltando um vozeirão que fez tremer o antigo teatro e seus mais de 1.500 espectadores, casa lotada. Bogotá fechou o salão numa versão apurada para que Mulatu pudesse participar. "Solidário e elegante, isso que ele é", disse Criolo durante a entrevista, já sabendo que o parceiro podia aprontar, ou seja, pedir para tocar junto.

Ainda que as letras do artesão de rimas sofisticadas sejam extremamente importantes, para os gringos a coisa vai além, pois dominar o público é mira atilada do brasileiro. Na plateia, duas amigas (uma italiana e outra indiana) trocavam olhares de surpresa enquanto diziam: "Pagamos por um show sem saber que vinha com um espetáculo de dança", referindo-se à teatralidade do artista, que incorpora elementos da cultura popular enquanto samba, cai no maracatu ou terreiro.

A presença de palco do artista é também uma demonstração de força e resistência. Sem deixar passar a violência que tem tomado conta de São Paulo nos últimos dias, pergunto a Criolo o que ele, que tem na música o poder de dizer tantas coisas, estava sentindo. "Não dá pra sorrir e achar que está tudo maravilhoso só porque algo bom rola contigo. A gente confraterniza através da música, mas as verdades que andam acontecendo preocupam muita gente. Tocar nesse assunto é tentar contribuir de alguma forma e criar um ambiente para reflexão", disse.

Não comparar as cidades por onde passa é entender que cada uma tem uma história, uma realidade totalmente diferente, uma economia, política, arquitetura e planejamento, ou falta de. "Ainda assim, tudo é feito de ser humano e, apesar de tantas coisas, é no olhar, no gesto e na vontade de cada um que a gente se encontra, se aproxima. Minha música é um pouco disso, um desabafo coletivo que acredita que nada de negativo é maior que o gente."

Ali no Koko, deixou o palco com um forte e grato abraço em cada integrante da banda e em Mulatu. E, depois de pedir desculpas por não falar inglês, repetiu o que todo mundo entende: "Peace and love", três vezes. Que a língua da sabedoria ele parece dominar.

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