Crimes de guerra, por Costa-Gavras

Armin Mueller-Stahl foi homenageado com um Urso de Ouro especial, por sua carreira, na Berlinale de 2011, que terminou domingo, após a premiação de Nader and Simin, A Separation, de Asghar Farhadi, no sábado. Ator de Rainer Werner Fassbinder (Lola e O Desespero de Veronika Voss), ele se definiu como um operário da interpretação em seu encontro com o público berlinense, para falar da homenagem. Grande Mueller-Stahl - há 22 anos, ele foi coprotagonista, com Jessica Lange, de um filme que está sendo resgatado em DVD pela Lume. Muito Mais Que Um Crime foi duplamente premiado no Festival de Berlim - além do Urso de Ouro de melhor filme, recebeu outro de Prata para a melhor atriz, Jessica Lange.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2011 | 00h00

Muito Mais Que Um Crime dividiu a crítica numa época em que a carreira de Costa-Gavras estava sendo alvo do revisionismo da imprensa especializada. O diretor francês de origem grega deve sua fama, basicamente, aos thrillers políticos por volta de 1970 - Z e A Confissão. Podem ser os mais famosos, mas não são necessariamente os melhores. A obra-prima de Costa-Gavras é Seção Especial de Justiça, em que expôs o colaboracionismo dos franceses durante a 2.ª Guerra.

Seção Especial é de 1975. Sete anos mais tarde, depois de discutir as falhas da Justiça francesa sob o marechal Pétain - que criou casuísmos para servir aos ocupantes nazistas -, Costa-Gavras fez O Desaparecido, Um Grande Mistério (que passa hoje na TV paga). Mais do que um requisitório contra o golpe militar no Chile, o filme é sobre as falhas da Justiça norte-americana, que impedem um pai à procura do filho de cobrar o envolvimento dos EUA na deposição de Salvador Allende. O tribunal volta em Muito Mais Que Um Crime.

O filme começa numa festa. Ficamos sabendo que Mueller-Stahl, um imigrante húngaro naturalizado norte-americano, é um good american. Na cena seguinte, vemos sua filha (Jessica) advogando na corte. Em duas cenas o cineasta cria um mundo que logo subverte. O bom americano é cobrado na Justiça e pode ter sido um criminoso nazista em seu país. A filha, que o defende, começa a descobrir coisas sobre o pai. O título original, The Music Box, refere-se a uma caixa de música que pode decifrar o mistério do passado desse homem.

Gavras sempre foi discutido porque mesmo seus grandes filmes seriam reformadores, não revolucionários. Pelo formato de grande espetáculo eles anestesiariam, mais do que despertariam, as consciências. Com Muito Mais Que Um Crime, a acusação foi outra - o formato de melodrama, aplicado ao drama de tribunal, diluiria a força crítica do olhar sobre o holocausto. Muito Mais Que Um Crime é bom, possui um suspense sólido - e Mueller-Stahl relembrou o sucesso do filme em Berlim, 1989 -, mas Costa-Gavras teria sido mais incisivo se adotasse outro viés, discutindo como e por que os EUA, no pós-guerra, acolheram tantos nazistas.

MUITO MAIS QUE UM CRIME EUA, 1989.

DVD da Lume, R$ 39,90

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