Crime quente ou crime frio?

"Cara, matar o homem eu entendo, até eu podia matar, mas esquartejar!... Ah, isso é demais!" Ouvi essa frase várias vezes desde o nefando crime. "Matou a mãe sem motivo" - assim eram as famosas manchetes dos jornais policiais d'antanho. Assassinos comuns nos confortam com seus motivos bárbaros (miséria, ignorância), mas o esquartejador tira-nos o sossego da alma, pois há entre nós e a loucura um limite que é quase nada. Lembram daquele cirurgião que desmembrou a namorada, alegando "legítima defesa"? E aquele garoto que matou pai e mãe nos Jardins de São Paulo e que a rica família conseguiu esconder? E o caso Isabela, e a Suzanne? Fica um buraco vazio em nossa memória. Não aguentamos viver sem clareza entre o bem e o mal.

Arnaldo Jabor,

19 de junho de 2012 | 03h11

Entendemos até as quentes paixões assassinas, mas o horror é gelado. A Elize disse que matou por ciúmes, por amor, para realizar ao avesso um pavoroso amor/ódio que lhe devorava a alma.

Agora, surgiu um legista barbudo que nos trouxe uma nova versão e (talvez) alívio de entendimento: "Foi muito difícil fazer a necropsia de muitos pedaços em saquinhos de plástico" - reclamou -, "mas, creio que ele ainda estava vivo quando foi degolado". E aí?

Isso nos conforta ou apavora? Essa versão de crime 'quente' torna a mulher mais monstro ou menos monstro?

A cena: o Matsunaga caído vê, num flash, sua amada, com a faca que cortara a pizza, rasgando sua garganta - um raio antes da escuridão total. Por um segundo, houve a testemunha do gesto. Por um instante, houve um fotograma de filme de horror, um fotograma de cinema realista mais crível que a fria cirurgia da vingança. Como no cinema, a verossimilhança é exigência das plateias. O crime seco faz menos sucesso. Se ela o degolou vivo, é bom para a defesa ou para a acusação? Ela, impulsionada pelo ódio, aumenta ou diminui a gravidade do homicídio? O que é mais desumano - o sangue quente ou sangue frio?

No crime quente haveria ao menos uma espécie de 'confissão' à vítima, quase um diálogo. Ele veria a própria morte e não seria apagado como um abajur e transformado em pacotinhos nas bolsas Vuitton. Vejo nas revistas que fica mais fácil classificá-la de 'monstro', se ele foi degolado vivo. Ela seria mais cruel, mais violenta, porém mais compreensível. "Presa de desatino, arrancou à faca o coração do amante" - dizia outra antiga manchete. (Este texto vai meio 'esquartejado' também, porque é impossível fechar tudo numa síntese, exatamente como é impossível para o legista juntar as partes e alcançar um sentido único.)

E se o crime foi gelado? No caso da morte fria, o japonês não saberia nem que morrera. E teríamos não apenas a crueldade, mas a burocrática cirurgia da vingança. Ela poderia ter chamado a polícia, entregar o corpo intacto, confessar o crime por autodefesa e ser inocentada em julgamento. Mas, ela era, como os jornais sempre repetem, uma "garota de programa", uma puta, claro, essa palavra tão odiosa quanto desejada. Nós pagamos a prostituta para ela não existir. E subjaz no freguês, em muitos putanheiros, além do medo de amar, uma vontade secreta de ser bom, de merecer a gratidão da mulher. Por medo e desejo, o Matsunaga gostava de se sentir 'salvador', protegido pela gratidão das 'decaídas'.

Mas, hoje as prostitutas se respeitam, são profissionais sem culpa. Antes, o freguês era o "sujeito" dos bordeis. Hoje, ele é o objeto. Há um vento gelado nos lupanares atuais, limpos, rápidos como uma lanchonete. Há algo de McDonald's nos puteiros contemporâneos.

Nos noticiários há uma sutil analogia entre putaria e crime, entre a mulher que se dá em pedaços a qualquer um e depois esquarteja. Ela deve ter pensado: "Vou perder tudo que tenho; logo, tenho de esconder o corpo".

O desmembramento desperta em nós uma curiosidade macabra, semelhante à fantasia primitiva de assistirmos à própria fecundação, a chamada 'cena primária' dos pais se amando: os dois corpos juntos com uma faca entre eles.

A cena: A moça deu o tiro. Instalou-se na casa um grande silêncio. O clima é outro; não um violento melodrama, mas um seco documentário.

A filha dormia, a babá tinha ido embora, os quadros estavam nas paredes, os restos de pizza esfriavam e os dois ficaram sozinhos.

Sentou no sofá para pensar no que fazer, foi buscar a faca de cortar a pizza, esperou o sangue coagular e dedicou-se à metódica tarefa de corte.

Eu acho mais terrível a solidão dos dois: ela viva e ele virado em coisa. Enfim, sós - quase um "tête-à-tête". O que aterroriza é a naturalidade do trabalho da assassina, como se trincha uma galinha. No Holocausto, o mais espantoso era a zelosa banalidade do extermínio - quantos dentes de ouro, quantos óculos, quantos anéis.

O esquartejamento é uma segunda morte. É o contrário da tortura em que o desesperado desejo da vítima é morrer. No caso, o que houve foi uma tortura post-mortem, em que a vítima não sentia mais nada, mas era preciso que fosse desumanizada, impedida para sempre de subir aos céus, de reencarnar. É isso que o esquartejador almeja: privar o morto até da morte, impedir uma identidade para o corpo.

O que me fascina nas prostitutas não é a falta de uma 'moralidade', não é o 'pecado' atribuído a suas vidas; o que impressiona é a espantosa mutação existencial provocada por centenas de pedaços de seu corpo dado a fregueses, anos a fio. Como fica a cabeça de uma prostituta, mistura de heroína com desgraçada, com uma experiência de humilhações que ninguém tem?

A marca da prostituição é muito profunda. Mesmo assim, na maioria delas mora um desejo de amor para além do "michê". Tentam, mas são humilhadas na gratidão. O cara tira a mulher da 'vida fácil' e isso nunca é esquecido pelos dois. Um dia virá a frase: "Vai voltar para o lixo, sua puta!" Ou seja, não adianta procurarmos uma explicação que sintetize o crime, como se a vida social fosse um contrato de bom senso. Como se fôssemos animais racionais e a loucura, um desvio. É o contrário, irmãos...

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