Jorge Silva/Reuteres
Jorge Silva/Reuteres

Crime Compensa

Com Alvo Noturno, Ricardo Piglia retoma o gênero policial, que trata pela lógica da violência [br]e do poder

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2011 | 00h00

Entrevista

Ricardo Piglia

ESCRITOR ARGENTINO

Um crime no pampa argentino é o ponto de partida para o escritor Ricardo Piglia retornar ao romance noir em Alvo Noturno, lançado agora pela Companhia das Letras. Na verdade, trata-se de uma trama policial sociológica - Tony Durán, porto-riquenho de Nova Jersey, moreno elegante e sedutor, chega a um povoado argentino onde se transforma em celebridade pelos modos apurados e principalmente por despertar a paixão das gêmeas Belladona, Ada e Sofía, filhas do mandatário local.

Aos poucos, porém, surgem outras especulações sobre sua vinda, que vão desde lavagem de dinheiro até um rumoroso caso homossexual. Até o dia em que Durán aparece morto a facada. Comandada pelo comissário Croce e acompanhada pelo repórter Emilio Renzi (alter ego do escritor), a investigação permite que Piglia exerça seu talento ao revelar os meandros de uma sociedade construída a partir de uma violência camuflada, que torna inertes seus habitantes.

Como já fizera em Respiração Artificial e Plata Quemada, entre outros, o autor argentino - considerado herdeiro de Jorge Luis Borges e Julio Cortázar - revela-se inquieto, radical, insatisfeito ao delinear uma história que, além de transcorrer em ritmo ágil e direto, é complexa graças à sobreposição de impressões sobre o assassinato. Pelo livro, Piglia, que completa 70 anos em novembro, venceu o Prêmio Hammett de romance noir, concedido pela Associação Internacional de Escritores Policiais. Antes de vir a São Paulo (leia abaixo), ele conversou com o Estado, por telefone, de Buenos Aires.

Até ser publicado, o livro estava envolto em mistério: acreditava-se, inicialmente, que teria a Guerra das Malvinas como pano de fundo e que seria escrito a partir de um diário que você mantém desde 1957. Hoje, sabemos que foram precisos 13 anos de preparação. Suas pretensões foram mudando ao longo dos anos?

Tenho um sistema de trabalho para os romances. Começo com uma primeira versão, que me consome dois anos de trabalho. Deixo-a de lado e retorno um tempo depois, quando avalio se as decisões continuam corretas. Para mim, é preciso que a trama tenha vários níveis, que seja um acúmulo de camadas. Assim, a primeira versão realmente se passava na década de 1980, durante a Guerra das Malvinas, mas logo acreditei ser demagógico, pois o conflito não era o assunto principal, apenas demarcava o tempo da história.

Sua atenção voltou-se, então, para uma trama familiar que revela a engrenagem da sociedade interiorana argentina?

Sim. A imagem que primeiro me veio foi a de um personagem, Luca Belladona, o filho que resiste às imposições paternas e, por isso, é obrigado a viver em solidão. Ele foi inspirado em um de meus primos, que tinha uma fábrica e que entrou em crise quando a situação financeira piorou. Seu irmão decidiu, então, abrir o capital e, quando percebeu a presença de estranhos na fábrica, esse meu primo surtou, começando a escrever seus sonhos nas paredes do local. Essa imagem, muito forte, manteve-se presente, especialmente no epílogo em que Renzi se lembra de Luca como alguém corajoso de estar à altura de suas ilusões.

A leitura de Alvo Noturno faz lembrar outra grande obra, Crônica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez, pois ambos partem de um crime para chegar a uma história familiar.

Não pensava no romance de García Márquez quando escrevi meu livro. O que há em comum com essa obra, e mesmo com os textos de Onetti, é a sombra de Faulkner - ele utilizava com maestria a genealogia familiar para articular uma trama. Claro que essa estrutura já é observada na Bíblia, mas Faulkner a utilizou de uma forma muito produtiva a fim de contar a história dos Estados Unidos. Muitos escritores adotam essa fórmula porque as narrativas familiares são plenas de relatos políticos e sociais, além de apresentar personagens saborosos, como o pai empedernido, o irmão que é um jogador contumaz, as mulheres frustradas, o tio misterioso que volta da Europa. A família é uma máquina de contar história. E a minha não podia ser diferente. Na verdade, os relatos familiares sempre são os mesmos, só mudam a perspectiva e o tom narrativo.

Olhar para o passado é um bom caminho para se enxergar melhor o futuro?

É uma estrutura que considero interessante e que utilizo muito, ou seja, a narrativa começa no tempo presente e acaba retrocedendo. Em Respiração Artificial, por exemplo, os acontecimentos do presente são explicados por fatos já ocorridos. Essa característica da narrativa me interessa muito e marca especialmente o romance policial, ou seja, a solução do problema está, muitas vezes, em rastros do passado. Gosto, aliás, de narradores mal informados, aqueles que vão aprendendo com o desenrolar da trama. Não me encanta narradores despóticos, seguros demais.

O suspense seria uma boa forma para se tratar de questões de identidade?

Com certeza. Esse gênero que chamamos de suspense e que é marcado por uma sucessão de revelações à medida que a trama se desenrola está muito ligado à voz de quem narra. O sucesso de um romance de suspense está diretamente ligado ao narrador, seja em terceira ou em primeira pessoa. É essa voz que detém a capacidade de aliciar o leitor.

Então, quais são os escritores de policial que mais o aliciam?

Muitos. Para citar um, lembro-me de David Goodis, que prefere usar um tom obscuro ao escrever e que trabalha muito bem com a história da vítima, seus anseios e imperfeições. Ele também se mostra seguro ao tratar de questões do passado, como já discutimos antes. Gosto especialmente de Atire no Pianista, que François Truffaut levou ao cinema mas com um tom errado, mais paródico, enquanto o romance é mais sombrio. A forma como Goodis descreve Eddie, esse pianista que vem de uma tradicional família de marginais, mas que aparentemente consegue escapar do que parecia ser um destino inevitável, é soberba. Essa linha de utilizar o passado como fonte para desvendar o presente me faz pensar também em O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, que traz um enigma. Sei que é uma heresia o que vou dizer, mas acho que o passado de Gatsby é demasiado revelado pelo autor - se fosse um pouco mais incerto, seria melhor.

Você acredita que há um parentesco entre a literatura policial e a psicanálise, pois ambas tratam de uma verdade a ser revelada?

É uma boa questão. Acredito, sim. Em um ponto metafórico, o psicanalista reconstrói alguns "crimes", imaginários ou não. E, do outro lado, o detetive também cobra por suas descobertas - Marlowe, de Raymond Chandler, pedia 50 dólares por dia (risos). Entender um texto é o mesmo que desvendar um crime, ou seja, a meta é fazer com que venham à tona os signos que estão escondidos. E um psicanalista também tem o trabalho de decifrar a partir de rastros que são obscuros.

O romance deve muito ao gênero policial?

Sim, Borges defendia o romance policial porque a trama tem de ser construída com certo cuidado para não ter falhas. E também é muito bom para personagens secundários - todos têm boa caracterização. É um gênero praticado até por não especialistas, como Rubem Fonseca.

ALVO NOTURNO

Tradução: Heloisa Jahn

Editora: Companhia das Letras (256 págs., R$ 45)

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