Crianças querem um rouxinol em português

Pena que o espetáculo em que tudo é perfeito teve uma temporada curta

O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2012 | 02h11

Os oito anos que separam o primeiro ato dos restantes da ópera O Rouxinol estabelecem claramente dois tipos de invenção musical por parte de Igor Stravinski, que, ao finalmente estreá-la em 1914, em Paris, desnudou praticamente o seu itinerário como compositor, desde os tempos em que era aluno de Rimski-Korsakov, na Rússia. O colorista aprendiz (e já genial, claro), tão visível no primeiro ato, desdobra-se no mestre da orquestração que explora ritmos e texturas com enorme inteligência no restante desta ópera curta, que a Orquestra Experimental de Repertório levou ao Teatro Municipal, entre 8 e 10 deste mês.

Impressiona bastante a performance da Experimental, conduzida com extrema segurança por Jamil Maluf, em uma música refinada e econômica de meios, na qual qualquer deslize beira o desastre. A orquestra parece mesmo viver um de seus melhores momentos. Do ponto de vista instrumental, portanto, um triunfo inegável. O elenco encabeçado pela soprano russa Olga Trifonova não ficou atrás. O conto de Andersen do rouxinol que encanta a corte da China e salva com seu canto único o imperador da morte teve em Trifonova o maior destaque. Ela enfrenta os maiores desafios técnicos, desde sua primeira aparição, graças a uma belíssima voz, afinação estupenda e uma técnica vocal irrepreensível. Stravinski exige piruetas, sobretudo no registro agudo, dificílimas e saltos intervalares angulosos - tudo típico de uma soprano coloratura.

O restante do elenco também esteve em alto nível. Ótima Daniela Carvalho (cozinheira), assim como Leonardo Pace (imperador da China), Saulo Javan (Bonzo) e a morte personificada por Silvia Tessuto.

A direção cênica de Licia Sabag reforçou as 'chinoiseries' de modo leve, enquanto a direção de arte, figurinos, bonecos de animais e a técnica de teatro negro (impecável na cena dos fantasmas do imperador) de Fernando Anhê foi um dos pontos altos da montagem, que fecha a virtuosa trilogia da Experimental em torno de óperas com temas fantásticos, que há mais de uma década encanta crianças de todas as idades e adultos com sucessos de público e crítica como João e Maria e O Menino e os Sortilégios.

Duas observações finais. Primeiro, a temporada foi curta demais - merecia ao menos uma semana inteira de espetáculos. Em segundo lugar, como as duas óperas anteriores conquistaram enorme empatia e entre o público infantil, os pais imaginaram que O Rouxinol teria as mesmas características. Muitas crianças em idade pré-escolar não se interessaram pelo que rolava no palco, porque se manteve, desta vez, a língua original, o russo, com legendas projetadas em telão. Claro, se fosse em português não teríamos a chance de curtir o talento de Olga Trifonova.

Não assisti à brasileira Caroline de Comi como Rouxinol na récita de sábado à tarde, mas, sem dúvida, teria valido a pena investir numa montagem em português - as crianças menores agradeceriam. E o sucesso poderia ser igual ao dos sortilégios de Ravel ou às aventuras de João e Maria, o maior hit da Experimental em sua existência.

Crítica: João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.