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Daniel Marinho/Arquivo Pessoal
Daniel Marinho/Arquivo Pessoal

Crianças nascidas em tempos da covid-19 precisam de rede de proteção

Os bebês que atravessaram nove meses (ou um pouco menos) de um 'lockdown uterino' acabaram de desembarcar em um mundo de distanciamento e restrições

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2021 | 05h00

No dia 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a covid-19 como uma pandemia. Ou seja, já se passou o tempo suficiente para algumas famílias crescerem dentro do que se convencionou chamar de “novo normal”. As primeiras crianças que atravessaram nove meses (ou um pouco menos) de um “lockdown uterino” acabaram de desembarcar em um mundo de distanciamento e restrições.

 Como tem sido para os pais? Essa geração guardará marcas deste período? Como essa experiência irá afetar o futuro dos recém-nascidos?

A primeira a tentar responder essas perguntas foi a Vanessa Martinez Gomes Turassa, 38 anos, que tem uma filha de 6 anos, mas acabou de dar à luz ao Miguel, agora com 2 meses. “Soube que estava grávida no auge do burburinho, quando tudo começou a fechar. A situação me assustou demais”, contou.


Vanessa ainda teve uma gravidez de risco, obrigando-a a permanecer no hospital por muito tempo. No período em que não estava internada, viveu as dificuldades de ir aos exames de pré-natal sem companhia. “Mas, quando ele puder entender, vou passar para ele, coisas positivas - como os cuidados que a gente aprendeu a ter com a própria saúde”, disse. “Mas não estou fazendo planos, ainda não sei como vai ficar a nossa situação financeira e a do País. Só desejo o melhor possível para ele, quero que estude e tenha uma vida saudável.” 

A pandemia pegou alguns casais de surpresa. “A gente tinha um planejamento familiar rígido. Já temos a Beatriz de 5 aninhos, mas vínhamos tentando outra gravidez desde outubro do ano retrasado. Daí, no começo da pandemia, a minha mulher (Daniele) disse: ‘peraí, tô grávida’”, lembrou Gabriel Vallier de Borja Gonçalves, 34 anos. “Na época, a gente não sabia direito o que era a covid. Não sabia se havia complicações para o bebê ou para a grávida. Começamos a ler tudo e correr atrás de informações”, completou.

Letícia nasceu depois de 38 semanas e 3 dias, pesando 4 kg e com 51 centímetros. “Nasceu um bebê grande e saudável, uma alegria. Quando ela crescer, vamos ter muito o que conversar sobre esse período atípico. Ela é de uma geração que ficará marcada. É uma geração marcada pela história, riscos e incertezas. Nunca se viu nada nessas proporções. Que tudo isso a fortaleça para ter um futuro brilhante, que sinta paixão pela carreira que escolher”, afirmou. 



Já o assistente social e membro da CUFA (Central Única das Favelas) Silvio Cezar de Oliveira, 43 anos, estava no meio de um ação de distribuição de cestas básicas, já no contexto da pandemia, quando sua companheira Cristina telefonou. “Quando voltei para casa, ela contou que estava grávida. Foi inesperado, não estava nos planos, mas aconteceu”, disse. “Crianças como a Lívia, minha filha, estão nascendo em uma época muito especial, uma época de luta pela sobrevivência. Luta que afeta a mim e a mãe dela. Vamos batalhar para entregar a nossa filha ao mundo. E que ela tenha condições de lutar por um mundo melhor”, completou. 

No caso da Cristiane Vilas Boas, 41 anos, e do David Barreto de Souza, 40, a pandemia vem sendo enfrentada com duas crianças pequenas em casa. “Eu tenho uma filha de um ano e 4 meses (Valentina), mas, em abril do ano passado, descobri que estava grávida outra vez. Foi um período de muitas incertezas. Tinha medo de ir para o hospital. Não queria sequer fazer o ultrassom. A Valentina, que tem um ano, passou pelo aniversário. Depois de muito tempo, quando viu uma criança da idade dela, ficou muito alegre. Até pouco tempo atrás, ela nunca tinha visto nem uma estrela”, disse.

Com o nascimento de Noah, Cristiane espera estar mais próxima do fim da pandemia. “Quero que meu filho possa ir a um parque, ter uma festinha de aniversário, conhecer outras crianças. Espero que tudo isso acabe para que Noah e Valentina tenham uma vida completa e feliz”, acredita.



 

Desamparo

O psicólogo e psicanalista Ronaldo Coelho diz ser impossível predizer muitos detalhes sobre o futuro da geração nascida em meio à pandemia, mas aponta a importância da reconstrução de uma certa rede proteção aos pais e mães na pandemia. “Quando um casal acaba engravidando, a tendência é ter um apoio da família - de parentes, amigos. Esse apoio é muito importante. Mas, como fica isso durante a pandemia?”, questiona. “Até para tirar fotos dos bebês ou da própria grávida, as famílias têm dificuldade porque ninguém quer se arriscar a sair de casa e pegar covid. Os casais tendem a se sentir desamparados.”

Sobre o futuro dessa geração, Coelho tem algumas pistas. “As crianças bem pequenas ou que nasceram agora vão demorar para ver outras crianças. Como será esse contato no pós-pandemia? Ainda não é possível saber, mas essas crianças podem ser um pouco mais retraídas”, disse. “Essa situação pode criar um sentimento de insegurança nas crianças. Elas ainda não sabem como é estar em espaços mais abertos ou longe dos pais - as crianças podem desenvolver a ideia de que estar longe dos pais é sempre perigoso. Podemos ter uma geração de mais medrosos”, argumentou. 


 

Adoções ocorreram com naturalidade no período

Felizmente, as famílias crescem de muitas maneiras. E uma das maneiras mais bonitas de ver uma família crescendo é por meio da adoção. Quando a pandemia se instalou no País, o juiz titular da Vara da Infância e Juventude de Guarulhos (SP) e assessor da Corregedoria Geral da Justiça de São Paulo, Iberê de Castro, imaginou um cenário em que os processos de adoção sofreriam uma queda vertiginosa. “Tentamos acelerar a colocação dos acolhidos para que eles já pudessem passar a quarentena com as famílias, mas a pandemia foi se estendendo e se esperava uma situação muito difícil”, relata.

Mas, segundo Castro, a queda das adoções em São Paulo foi bem menor que a imaginada. “Não foi uma queda tão brusca. A gente começou a aprender a trabalhar com os meios virtuais de audiências e com tudo o que pode ser feito à distância. Depois de dois meses de adaptação, a situação engrenou. A partir de junho, julho, as adoções começaram a ocorrer com mais naturalidade.”

Um desses casos de sucesso envolveu o Pastor Evangélico Charles Wesley Machado, 44 anos, e a pedagoga Sandra Faria Freitas, 42 anos. Depois de 17 anos de espera (10 anos de um tratamento para tentar engravidar e outros sete na fila de adoção), o casal recebeu o telefone que tanto aguardava em abril do ano passado, no meio da pandemia. “A psicóloga me ligou dizendo que havia um bebê para nós. Foi um choque”, confessou Wesley. 

“Minha primeira reação foi dizer que não sabia se teria condições de cuidar de uma criança nesse momento (de pandemia). Minha esposa teve medo também. Aos poucos, veio a sensação de alegria, misturada com insegurança, mas muita alegria”, lembra Wesley.

Não demorou para que o casal entendesse que aquela era a realização de um sonho e que, sim, eles queriam o bebê. Assim, aos 7 meses, Matheus entrou para a família - hoje, já está com 1 ano e 4 meses. “Os amigos conheceram o Matheus online, o bercinho e as roupas foram compradas pela internet. Em meio à pandemia, o que podemos garantir é um ambiente de fraternidade e amor para o nosso filho”, explicou o pastor. “Nosso coração transborda de gratidão”, arrematou Sandra.

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