Crianças engrossam audiência de atrações impróprias

A Rede Globo sabia que o Big Brother Brasil era um programa de grande audiência infantil quando levou ao ar, no dia 10 de junho, as cenas veladas de sexo entre os participantes Jefferson e Tarciana. Uma pesquisa realizada dois meses antes, em abril, pelo Ibope Telereport PNT (empresa do grupo Ibope) tinha revelado que o Big Brother é o programa mais visto entre crianças de 4 a 11 anos de ambos os sexos. A pesquisa listou os 30 programas de maior audiência nesta faixa etária. A Globo produz os 19 mais assistidos. O 20.º programa na preferência infantil é o similar Casa dos Artistas, do SBT.A pesquisa do Ibope foi usada pela emissora em uma peça publicitária veiculada em jornal. O levantamento mostra que da audiência total do Big Brother, 22,4% é formada por crianças. O Ministério da Justiça recomenda o BBB como um programa próprio para maiores de 16 anos. A grande audiência infantil, porém, aumenta a responsabilidade da emissora na edição do conteúdo exibido.Outros programas da Globo, igualmente recomendados para o público adulto pelo Ministério da Justiça, também figuram entre os preferidos pelas crianças, de acordo com o levantamento do Ibope. O humorístico Casseta e Planeta, por exemplo, aparece em sétimo lugar, e o policial Linha Direta, é citado na nona posição.O diretor da Central Globo de Comunicação, Luiz Erlanger, usa a recomendação do Ministério da Justiça para justificar a edição das cenas de sexo sob o edredon entre Jefferson e Tarciana em um programa de grande audiência infantil. "Esses programas vão ao ar em horários ainda mais tardios do que os que são sugeridos pela classificação do Ministério da Justiça", diz.Erlanger reconhece que a cena em questão foi exibida de forma imprópria, mas atribui responsabilidade aos pais pelo controle dos programas vistos pelos filhos. "Antes mesmo de a Central Globo de Qualidade registrar a primeira reclamação quanto a esse caso, a Marluce (Dias da Silva, diretora-geral da Rede Globo) se reuniu com a direção do programa e demonstrou sua insatisfação quanto à edição das cenas e isso não se repetirá mais", diz ele. "Mas com relação ao fato de crianças acompanharem o programa, o hábito delas é que é inadequado para a idade. A responsabilidade da emissora é cuidar para que a programação seja adequada para o horário, assim como a da famílias é zelar para que suas crianças assistam TV, estudem, durmam, etc. em horário adequado", destaca."É muito comum a gente ver as crianças envolvidas, observando tudo", lembra a psicopedagoga e especialista em educação infantil Orly Zucatto Mantovani de Assis, da Faculdade de Educação da Unicamp. Para ela, o conteúdo da maioria dos programas é realmente inadequado, mas é muito difícil se colocar contra tudo isso. A solução, segundo Orly, é a seguinte: "Enquanto não se tem uma sociedade que exige que a mídia colabore com a moralidade, os pais precisam chamar para si a responsabilidade." Para ela, deixar que a televisão assuma a função de babá significa expor as crianças a toda sorte de programação. "É fundamental que a família se responsabilize em selecionar os programas que as crianças assistem."O ideal em relação à alfabetização televisiva, segundo ela, seria um adulto acompanhar tudo o que a criança assiste, discutir e conversar sobre o que ela está vendo. "O que programas como Big Brother e Casa dos Artistas estão trazendo para o benefício das crianças?", questiona Orly. Outra preocupação é em relação às chamadas para os programas da noite, feitas a qualquer hora do dia, e que criam uma expectativa nas crianças. Orly dá como exemplo o policial Linha Direta, entre outros, que não são apropriados para elas.A classificação dos programas é feita com base nas sinopses e leva em conta conteúdos que tenham cenas de violência, drogas e família. Tendo em vista esses valores, os programas são classificados por faixa de horário. O secretário nacional de Justiça, João Benedicto de Azevedo Marques, acredita que a classificação está dando resultado. Ele cita como exemplo o apresentador Ratinho, do SBT. "Vi uma entrevista em que ele reconhece que os ´puxões de orelha´ que recebeu colaboraram para que seu programa melhorasse."Diante da tela, o público se vê limitado. "O telespectador é uma figura praticamente passiva diante da televisão. Não tem direitos, meios de se comunicar para mostrar o seu desconforto, sua discordância e fazer um controle da qualidade", afirma Marques. Para reverter esse quadro, o governo propôs às emissoras a criação do ombudsman, um profissional que se encarregaria de fazer a ponte entre a emissora e o público.O secretário já se reuniu com as emissoras, que prometeram estudar a proposta. "Estamos estabelecendo um diálogo adulto. Pretendemos trabalhar numa linha de parceria e não na linha da imposição. É mais ou menos o que foi o Código de Defesa do Consumidor, que teve muita resistência, mas que hoje é algo vitorioso. Queremos valorizar o cidadão e dar o direito a ele de opinar. A idéia é que as emissoras criem um programa de uns 5 minutos para ser o momento do telespectador", diz.

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