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Crianças e Jerusalém

No Museu do Holocausto, revesti-me de uma couraça racional, porém fui vencido

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2017 | 02h00

Viajar em aviões, navios e ônibus, quase sempre, implica dividir espaço com crianças alheias. Os bebês chorarão assim que o avião decolar, premidos pela dor nos ouvidos. As crianças maiores ficarão inquietas, especialmente em trechos longos, batendo os pés no banco da frente sem perceber que, logo adiante, se encontra minha pleura como uma capa estendida no tambor da paciência. Ao meu lado, há poucas semanas, uma mãe decidiu trocar as fraldas da filha, no banco vazio entre nós. Tentei desviar o olhar e ocluir o nariz. Foi pouco eficaz. Tentei praticar a compaixão e compreender o problema daquela moça. Tentei muito mesmo. 

A favor de toda tolerância: todos fomos crianças. Também todos já fomos analfabetos e tivemos períodos de escassez dentária na infância. Alguns adultos corrigem essas duas ausências com o tempo. Sabemos que crianças precisam ir ao banheiro apenas e tão somente quando o avião entra em turbulência ou quando aterrissa. Crianças nunca são estratégicas, previdentes ou prudentes. Nunca um infante pensou em um casaquinho ou um guarda-chuva preventivo. Até os 7 anos, longo prazo é o minuto seguinte, crescendo para 15 minutos depois disso. 

Estômagos mais delicados e intestinos mais selvagens, crianças guardam relações ambíguas com matéria alimentar ingerida ou semiprocessada. Nunca me esquecerei de um episódio de quase três décadas. Entrei no elevador do meu prédio, e lá estava uma mãe elegantíssima em tailleur preto e blusa de seda branca segurando um fofo bebê. Pouco antes do térreo, o bebê decidiu que o achocolatado ingerido antes não era do seu inteiro agrado e o devolveu ao mundo sobre a roupa de trabalho. A mãe parecia atrasada. Seu filho decidira que o horário era item irrelevante comparado ao seu paladar. Por um breve instante, vendo o olhar de desolação daquela mulher, imaginei que pontualidade era uma cortesia de reis e um apanágio de quem não tinha filhos pequenos. Se a mãe imaginasse que o chocolate era um produto da Mesoamérica e bastante popular entre maias, teria completado o impulso genocida europeu do século 16. Eu, imóvel em um canto do elevador, respirava aliviado de ter conseguido evitar sobre meu terno o retorno do cacau recalcado. 

Sim, a mãe ficou desolada, mas era seu filho, sua obra máxima, sangue do seu sangue, tendo emergido do seu ventre entre dores e esperanças. Talvez por isso que, de forma algo vulgar, alguns insistam em lembrar que filhos e flatos só suportamos os de nossa autoria. 

Todas as minhas posturas mudaram há alguns anos. Conto a seguir. A primeira vez que fui a Jerusalém foi muito forte. Cidade dourada, histórica, densa, com uma memória que os livros de Montefiore e Karem Armstrong tinham avivado. Do hotel King David tomava algo no fim da tarde olhando a muralha e recriando Davi, Salomão e a entrada da arca da aliança no Santo Dos Santos, o cerco babilônico, o primeiro templo em chamas, a reconstrução, a visão de Isaías, a reestruturação de Herodes o Grande, as visitas de Jesus, o cerco, o segundo incêndio, a visão do profeta Mohamed, o horror da primeira cruzada, a visitas ilustres à cidade e até a explosão de parte do hotel no qual eu estava em um atentado famoso de 1946.

No último dia da visita, fui ao Museu do Holocausto (Yad Vashemn). Era um exercício de memória terrível e necessário. Foi pior. Eu estava preparado para ver cenas de genocídio, dores, violência, barbárie. A frase de Isaías na entrada já me alertava que os nomes estavam preservados e que a dor tinha encontrado uma direção. Revesti-me de uma couraça racional, porém fui vencido. Por quê? Antes de entrar no prédio principal fui ao memorial das crianças mortas (Yad Layeled). Em vez de muitos textos, um efeito sutil e impactante multiplicava um milhão e meio de velas em memória de um milhão e meio de crianças mortas. Ambiente escuro, a chama bruxuleante das velas, a memória de mais de um milhão de seres humanos ceifados na infância pela barbárie nazista. Nomes, fotos e velas evocavam uma memória mais do que trágica. Toda morte é terrível, sempre, no entanto a morte de uma criança é uma violação de toda ordem natural, uma hecatombe, em si a verdadeira catástrofe: o fim de uma geração futura. Nada do que eu lera me preparara para aquilo. Desmontei como nunca tinha acontecido. Chorei convulsivamente, por muito tempo. Chorei por aquelas crianças. Chorei pelas crianças de Darfour, no Sudão. Chorei pelas crianças de rua no Brasil. Chorei pelas crianças de Biafra, na Nigéria. Chorei pelas crianças árabes dos acampamentos de Sabra e Chatila. Foi uma das coisas mais fortes de toda minha vida e eu estava feliz por estar sozinho. Teria sido difícil a comunicação com outras pessoas depois disso. 

Eu disse que tinha mudado. Desde aquele dia em Jerusalém eu prometi a mim mesmo que todo choro de criança, todo bebê que grita ou me impede a concentração é uma vela a menos naquele museu. Toda vida que se manifesta é uma biografia com horizonte e esperança. Todo pirralho correndo no restaurante está vivo. Devemos corrigir crianças que se excedem para que aprendam que não estão sozinhas no mundo e que existe o outro. Sim, é nossa obrigação. Depois que vi aquele testemunho da morte de tantas crianças causada pela intolerância, minha relação com a agitação infantil mudou. Boa semana a todos vocês, especialmente para as crianças da sua família. 

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