Criador em trânsito

Com o espetáculo De Verdade, o diretor Marcio Abreu sublinha a relação entre Rio e Curitiba

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES CURITIBA, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2012 | 03h09

Algum espaço entre a exuberância e o frio, entre o sol e a neblina. É nesse intervalo que nasce a obra do diretor Marcio Abreu. Destaque na última edição do Festival de Curitiba, quando apresentou Oxigênio na mostra paralela, Fringe, ele retorna este ano com lugar na grade oficial. Trouxe o espetáculo De Verdade e, com a criação, sublinha a sua oscilação contínua entre duas cidades: o Rio de Janeiro e Curitiba. Carioca, Abreu mantém-se à frente da paranaense Companhia Brasileira de Teatro. E faz questão de não fixar-se em nenhuma das duas capitais - vive sempre um pouco aqui, um pouco lá - e contamina suas criações dessas culturas opostas. "Caminho constantemente entre esses dois pontos. Me encontro nesse deslocamento", diz ele, que apresenta outras peças no contexto do Festival e prepara para este ano um espetáculo com a atriz Renata Sorrah.

Com estreia no Rio prevista para abril, De Verdade é uma das raras incursões do encenador fora dos limites da sua companhia. Na montagem, ele trabalha com os atores cariocas Kika Kalache e Guilherme Piva. Parte do romance do húngaro Sándor Márai, mas não assina a adaptação - expediente comum nas suas encenações anteriores. Ainda assim, é possível vislumbrar elementos que se tornaram marca de sua linguagem.

É determinante na estética do espetáculo o fato de Abreu ter ao seu lado a atriz e iluminadora Nadja Naira e o cenógrafo Fernando Marés, ambos integrantes da premiada Cia. Brasileira. Não se trata só disso, porém. Em De Verdade, o diretor coloca os intérpretes em um constante estado de suspensão. Eles se relacionam com o texto de Márai sem reverência. Assumem até certo olhar irônico em relação à história do amor fracassado que é narrada. Na versão teatral, nada é tão austero quanto no romance. Ronda a cena um quê de patético - resultado, talvez, desse encontro entre o escracho carioca e o distanciamento curitibano.

Ao contrário do que costuma ser a regra dos diretores diante de suas criações, Abreu não tece elogios ao texto que leva ao palco. "Não tenho um apreço especial por essa história. Não é algo que me mobiliza pessoalmente. Mas me interessa muito descobrir como qualquer material pode se tornar teatro", comenta. Tal convicção também contamina sua visão em outros trabalhos.

É o caso de Isso te Interessa?, que será apresentada em Curitiba nos dias domingo e segunda-feira, e passa por São Paulo no dia 6. Nesta, que é uma produção da Companhia Brasileira de Teatro, Abreu toma a ficção da dramaturga francesa Noelle Renaüde sem demonstrar adesão absoluta à sua proposta. "Me parece um texto excessivamente formalista. Mas isso não me afasta", observa o diretor, que diz ter encontrado aí terreno para levar adiante suas pesquisas.

A dramaturgia dá conta da trajetória de uma família durante gerações. Todos aqueles que costumam ser os "grandes acontecimentos" de uma vida - nascimentos, casamentos e mortes - aparecem sob uma casca de banalidade. Nesse contexto, o diretor aprofunda suas investigações sobre planos narrativos e, sobretudo, sobre o lugar do ator. Aqui, os intérpretes passeiam por vários personagens. A exemplo do diretor, estão sempre em um lugar de passagem. Em trânsito.

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