Criador da Mostra de Cinema de SP conta aventuras em livro

A literatura de viagem é um gênero que já deu aos leitores obras-primas de grandes poetas e romancistas, especialmente dos séculos 18 e 19, entre eles Byron, Stendhal e Goethe. O gênero, naturalmente, não morreu. Só que, no lugar de viagens pela Itália, como as do trio de autores clássicos, o crítico e organizador da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Leon Cakoff, foi levado a tantos lugares improváveis e enfrentou condições tão adversas em busca de seus tesouros cinematográficos que estava mesmo devendo um livro sobre essa sua experiência de 30 anos como globe-trotter. O livro, "Ainda Temos Tempo" (Cosac Naify, 176 págs., R$ 39), será lançado nesta segunda-feira, a partir das 19 horas, no Unibanco Arteplex. Em uma frase: é um livro delicioso, que só poderia mesmo ter sido escrito por um humanista, um sociólogo de formação, atento a tudo e a todos.Cakoff e a editora Cosac Naify já têm uma parceria de seis títulos sobre cineastas revelados pela Mostra de Cinema, entre eles o iraniano Abbas Kiarostami, o israelense Amos Gitai e o português Manoel de Oliveira. O sétimo está a caminho. Reúne o melhor da produção do cinema político italiano dos anos 1960 e 1970. "Ainda Temos Tempo" não se encaixa nessa série. É um livro de crônicas que também fala de cinema, mas elege como personagens o homem das ruas de Tashkent, a dona de casa de Varsóvia, o rabino do cemitério onde está enterrado Kafka em Praga, prostitutos argelinos e caubóis xenófobos de um saloon de Albuquerque, Santa Fé, onde Cakoff foi atrás de Godffrey Reggio, o diretor de Koyaanisqatsi, outra descoberta sua.São tantas as histórias nesses 30 anos de Mostra que Cakoff poderia tranqüilamente repetir Proust e viver só da memória do evento que criou e revelou para os brasileiros cineastas como Herzog, Wenders e Angelopoulos. A melhor dessas histórias talvez seja mesmo a de como Cakoff virou, por acaso, figurante de Fellini em seu Ginger e Fred, conseguindo como bônus um desenho do mestre italiano para ilustrar o cartaz da 10.ª Mostra. Disposto a entrevistar o diretor, o crítico furou o cerco na Cinecittà e entrou por acaso no set de filmagem. Hoje pode ser visto numa ponta de Ginger e Fred, na platéia que assiste à performance televisiva da dupla Giulietta Masina e Marcelo Mastroianni.Como observa o cineasta Carlos Reichenbach na apresentação de "Ainda Temos Tempo", Cakoff escreve como Herzog filma, transformando contatos triviais em uma experiência-limite. De fato, ao descrever o clima opressor e as humilhações na aduana de países do antigo bloco comunista, a impressão que fica é a de que Cakoff arriscou seu pescoço várias vezes para trazer ao Brasil (em plena ditadura militar) filmes que, de outra maneira, jamais teriam sido aqui exibidos. Sua independência ideológica garante um relato isento sobre pessoas acossadas pelo poder de burocratas, assim como sobre a tortura do silêncio em regimes autoritários. Ele começou, por exemplo, a freqüentar o Festival de Berlim em plena guerra fria, quando aviões começavam a ser seqüestrados para a Líbia e a paranóia viajava a jato entre as duas Alemanhas.´O momento é oportuno para uma reflexão interna´, diz Cakoff, condenando a ´conspiração do silêncio´ de uma elite que, segundo ele, prefere calar sobre o arbítrio desses anos de chumbo. Essas crônicas, garante o crítico, não perseguem o paródico, mas o detalhe que possa revelar o caráter de uma pessoa ou de um povo. Ele, por exemplo, foi salvo de morrer congelado na Polônia por uma boa samaritana. Quase presenciou uma segunda primavera de Praga, ao testemunhar a revolta do povo checo contra a dominação soviética, numa época (1986) em que o medo do terror impedia discussões sobre o desastre de Chernobyl, por exemplo.Buscar filmes nesses países era como viajar para outra dimensão, diz Cakoff, comparando suas viagens com expedições extrativistas dos tempos primitivos, em que o troféu era invariavelmente o produto subtraído dos países visitados. Ao contrário dos predadores coloniais, o que ele trouxe na bagagem foi sempre a cultura de um povo, prestes a ser revelada por meio do cinema. " cinema, para mim, sempre foi sinônimo de viagem, desde que vi, aos 6 anos, em Alepo, ´Vinte Mil Léguas Submarinas´" resume. Filho da diáspora armênia, Cakoff deixou a cidade síria aos 7, instalando-se com a mãe e os irmãos no bairro do Tremembé, em São Paulo. Essa é uma das histórias ainda por contar. E haverá muitas outras sobre seus encontros com homens notáveis. "O mundo é feito de pequenos diálogos", conclui. "Basta estar aberto às pessoas." Ainda Temos Tempo. De Leon Cakoff. Cosac Naif. 176 págs., R$ 39. Unibanco Arteplex. R. Frei Caneca, 569, 3.º piso. Hoje, 19 h

Agencia Estado,

25 de setembro de 2006 | 13h23

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