CRIAÇÃO PARA UMA NOVA ÉPOCA

O compositor Leonardo Martinelli abre série dedicada a jovens autores

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2013 | 02h14

Um diálogo imaginário vai reunir amanhã na Sala São Paulo Vênus, a deusa do amor, Azrael, o anjo da morte, e Ogum, o orixá da caça e da guerra. Três diferentes divindades, três diferentes tradições religiosas - em um só momento musical criado pelo compositor Leonardo Martinelli, que abre a série de encomendas feita pela orquestra Bachiana Filarmônica Sesi a jovens autores brasileiros. A estreia de O Diálogo entre Vênus, Azrael e Ogum será regida por John Boudler que, na sequência, devolve o pódio ao diretor da orquestra, o maestro João Carlos Martins, que rege também obras de Mozart (o concerto para piano K. 482, com Arthur Moreira Lima, e a Sinfonia Júpiter).

Leonardo Martinelli nasceu em São Paulo, onde é professor da Escola Municipal de Música e já teve obras interpretadas por conjuntos como a Orquestra Experimental de Repertório e o PIAP. Conta que não vem de uma família musical. Os pais são professores de História, mas a avó materna "arranhava um piano". Foi assim que, aos 9 anos, começou a se interessar pela música - e os estudos formais do instrumento já abriam espaço para o espírito do compositor. "Para mim foi muito natural brincar de criar música ao mesmo tempo que me dedicava à construção de um repertório ao piano. Só quando entrei na faculdade, na Unesp, optei exclusivamente pela composição", diz.

Ao longo do ano passado, ele estreou uma série de obras de câmara, escritas para diversas formações - Amor Nunca Diálogo, por exemplo, unia trompete e marimba, enquanto O Fio das Miçangas era dedicado ao trio formado por piano, violino e violoncelo. Agora, ele volta à escrita orquestral. Em que medida seu processo criativo é pautado pela forma? "Existe um 'fio das miçangas' que une os diferentes tipos de formações que utilizo em minhas peças", explica. "Mas é inegável que diante do imenso arsenal de timbres que uma orquestra proporciona, o processo criativo torna-se mais complexo. A orquestra é um organismo vivo, cujo funcionamento é baseado em uma série de leis e hábitos artísticos e sociais, e é extremamente desafiador propor novas sonoridades e ideias musicais a partir da lógica toda peculiar da orquestração. Na música contemporânea virou senso comum que o caminho da criação parte da implosão dos modelos, formas e processos. Eu gosto de atuar dentro dos limites de uma determinada formação e propor algo novo ou diferente a partir de sua lógica interna, para somente então extrapolar suas fronteiras, sempre de dentro para fora."

O catálogo de obras de Martinelli revela não apenas uma multiplicidade formal. Sua inspiração também assume diversos caminhos. "Em meus primeiros anos como compositor, minhas peças tinham uma conotação um tanto abstrata. Os próprios títulos refletiam isso: Trio, Peça para Piano, Abertura Orquestral", conta. O tempo, no entanto, fez surgir obras como Junitaki, octeto de sopros inspirado em texto de Haruki Murakami, ou o quarteto de cordas Dois Irmãos, a partir do romance de Milton Hatoum. "Passei a permitir que minha condição de leitor e fruidor de outras artes se infiltrasse em meu processo criativo: por um lado, na hora de escrever, estou em diálogo com a escrita de outros compositores do presente e do passado; por outro, a fascinação que outras artes exercem são extrapoladas em forma de música."

A importância da literatura em sua trajetória pessoal levou também à criação do que Martinelli chama de "ficções musicais", caso de O Diálogo entre Vênus, Azrael e Ogum, e à gestação de projetos ainda mais ambiciosos. No segundo semestre, por exemplo, o Ensemble Platypus, de Viena, fará, na Europa e no Brasil, a estreia de Geburt der Venus (Nascimento de Vênus), "peça para voz feminina e conjunto instrumental baseada no poema de Rainer Maria Rilke e na genial tradução, ou transcriação, feita por Augusto de Campos". "O desafio será fazer uma partitura que possa ser interpretada tanto em alemão como em português, e que vai explorar diferentes facetas da performance vocal, como o canto, a declamação e a leitura dramatizada", explica Martinelli, que vê a peça como um primeiro passo para futuros projetos: uma versão teatro-musical de O Túnel, de Ernesto Sábato, e uma ópera a partir de Navalha na Carne, de Plínio Marcos, com libreto de Oswaldo Mendes.

O espaço para o jovem compositor é ainda o principal desafio a ser enfrentado, acredita Martinelli. É certo que o desaparecimento do que chama de "policiamento estético" das escolas de vanguarda dá ao autor enorme liberdade criativa. "Porém, esta liberdade é paga a um preço muito alto, isto é, seu virtual banimento da cena musical dos grandes palcos de ópera e orquestra. Se estamos livres do policiamento estético interno ao mundo dos compositores, na prática nossa atividade está à mercê de gostos pessoais e caprichos de burocratas ou mesmo de músicos sem compromisso com a música de invenção e com a juventude, que para eles só é bem-vinda na hora de preencher uma cadeira vazia numa sala de concertos ou casa de ópera. Hoje fala-se muito de renovação e rejuvenescimento das plateias clássicas, mas não consigo ver como isto pode ocorrer excluindo-se os próprios jovens dos palcos clássicos."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.