Andréa Rocha/Divulgação
Andréa Rocha/Divulgação

Criação e política no palco

Grupos teatrais latino-americanos se encontram no Centro Cultural SP

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

26 Abril 2011 | 00h00

A história dos países da América Latina e suas versões por diversas companhias. É este o mote da Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, que abre hoje sua sexta edição e se estende até domingo. No evento, seis companhias estrangeiras e cinco brasileiras trazem à baila aspectos de diferentes realidades históricas do continente. "O eixo inicialmente nem era esse. Mas quando os trabalhos começaram a chegar vimos que tratavam todos dessa questão da história latino-americana, que era um ponto que surgia com muita força", explica Ney Piacentini, idealizador da mostra e responsãvel pela curadoria, ao lado do ator Alexandre Roit.

A identidade dos povos maias aparece tematizada em Oxlajuj B'aqtun, espetáculo de teatro, dança e música da Guatemala, que abre a programação do festival. Formado por jovens maias da etnia kaqchikele, o grupo Sotz"il faz um trabalho de investigação de suas raízes culturais, tratando de sua ligação com a natureza, seu passado de exclusão e das histórias de seus antepassados.

Da Argentina vem o espetáculo Notas para un Viaje Interminable, montagem do grupo Nuevodrama que mira os 200 anos da Revolução de Maio e acaba por fazer uma retrospectiva não só da história do país como também de seu teatro. Outro destaque da grade, indica o curador, é a peça dos artistas colombianos do Teatro Varasanta: Fragmentos de Liberdade. Em cena, esse grupo criado em 1994 revisita a memória de dois séculos de independência de seu país e tenta colocar a própria história como um espelho do que aconteceu em vizinhos da América do Sul, questionando o real alcance das transformações sociais e simbólicas ocorridas nessas nações.

O Brasil aparece na mostra com criações de fora do eixo Rio-São Paulo. Café Quente em Noite Fria ou O Ensaio sobre a Lenda do Ouro Verde é o espetáculo trazido de Londrina, que se debruça sobre a cultura do café na cidade e arredores. Filiado à linha do teatro épico de Bertolt Brecht, e influenciado pelos trabalhos desenvolvidos por outros representantes brasileiros dessa linhagem, como Augusto Boal e a Cia. do Latão, o grupo paranaense trata da grande geada que minou a cultura cafeeira na região em 1975 e provocou sua migração para a Amazônia no ano seguinte.

Migração. É precisamente do extremo norte do país que vem outro dos pontos altos da programação nacional. Fundado em 1968, o Teatro Experimental do Sesc do Amazonas comparece na mostra com o espetáculo Eretz Amazônia. Com texto e direção do romancista Marcio Souza, a peça ressalta como a migração foi um dos fatores de formação do povo da região e conta, por meio de sete episódios curtos, como os judeus sefaradistas se integraram à Amazônia a partir de 1810.

Além de espetáculos, a mostra deve contar a presença de Tobias Biancone, Secretário Geral do International Theater Institut - ligado à Unesco - e com apresentações dos processos de trabalho de todos os grupos envolvidos na programação. De acordo com o curador, esse tipo de exposição tem permitido que companhias - tanto as jovens quanto as mais antigas e tradicionais - repensem seus próprios procedimentos a partir do contato com outras propostas de pesquisa. "Para nós, a demonstração do processo criativo é tão ou mais importante do que o espetáculo. São verdadeiros laboratórios em que muita gente revê seus pontos de vista."

DESTAQUES

Oxlajuj B'aqtun

Espetáculo guatemalteco tem participação de jovens artistas e explora a identidade dos povos maias e o processo de exclusão social a que foram condenados

Notas para Un Viaje Interminable

Grupo argentino aborda os 200 anos da Revolução de Maio em peça que investiga relação entre política e o teatro no país

Fragmentos de Liberdade

Peça colombiana procura traçar paralelos entre a independência do país e de outras nações da América Latina

Eretz Amazônia

Com texto e direção do romancista e dramaturgo Marcio Souza, peça investiga o papel da migração interna na formação da identidade dos povos da Amazônia

VI MOSTRA LATINO-AMERICANA DE TEATRO DE GRUPO

Centro Cultural São Paulo.

Rua Vergueiro, 1.000, Paraíso, 3397-4002. Grátis - retirar ingressos das 11 h às 21 h.

Até 1º/5. Programação completa pode ser encontrada no site www. mostralatinoamericana.com.br.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.