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Criação

E Deus viu que precisava criar uma distração para o homem, que ameaçava anarquizar sua obra

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 22h00

Deus criou o céu e a terra e tudo que continham, embora diga que o rinoceronte não foi ele. E criou o homem, e chamou o homem de Adão, mas o homem não gostou e disse que preferia se chamar Heitor. E Deus viu que tinha criado um problema.

– A criação é minha e sou eu que dou nome a todas as coisas – disse Deus. E acrescentou: – Menos ao rinoceronte, que eu não sei de onde saiu.

– Fred.

– O que?

– Fred. É o nome do rinoceronte.

E Deus viu que precisava criar uma distração para o homem, que ameaçava anarquizar sua obra, e logo no primeiro dia. E, como já tinha criado o Tempo, Deus criou o Passatempo. Uma mulher, que apresentou ao homem.

– Esta é Eva.

– Elvira – corrigiu a mulher.

– Elvira – suspirou Deus. 

*

É preciso dizer que Deus era da velha guarda, que só sabe pensar em mulher como passatempo, ou serva, do homem. E Deus não demorou a descobrir que a mulher era pior do que o homem. Mais opiniática (mudou o nome de tudo, inclusive do Fred, que chamou de Brogadão) e mandona (trocou o nome do homem umas cinco vezes, até decidir que seria Fofice e pronto). E Deus concluiu que, em vez de criar uma solução, criara outro problema.

Era preciso controlar Eva, ou Elvira, ou que nome ela mesmo se dera, antes que ela abrisse uma rede de butiques e acabasse banindo Deus do Éden e tomando o poder. Deus chamou o homem para uma conversa homem a homem. Bolara um plano: convenceriam a mulher a provar a fruta da Árvore do Saber, de onde ela tiraria varias ideias para seus empreendimentos, e a fruta estaria envenenada. Fim da mulher. O que o homem achava do plano?

– Não sei... – disse o homem.

– Como não sabe? Nos livraríamos dela. Isto aqui voltaria a ser um paraíso.

– Ela me chama de Fofice. Entende? De noite, na cama. “Vem, Fofice”. E pede pra eu chamá-la de “sweetie”, que é docinho em inglês. Entende? Docinho, Deus.

E Deus desistiu. Fez a sua mala e emigrou para o Leste do Éden. 

É ESCRITOR, CRONISTA, TRADUTOR, AUTOR DE TEATRO E ROTEIRISTA

 

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