Roniel Felipe/Divulgação
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Crespos trocam a política pelos afetos

As questões raciais sempre estiveram no horizonte do grupo Os Crespos. Investigações sobre qual o lugar dos negros na contemporaneidade. Perguntas inconvenientes que teimavam em apontar novas e velhas contradições. Com Além do Ponto, espetáculo que estreia nesta quinta-feira, 10, no Teatro Ágora, a tônica parece ser outra. Saem da linha de frente os grandes temas. Entram as miudezas do afeto.

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2011 | 00h00

É em torno das fases de uma separação que se desenvolve a montagem: a decisão pela ruptura. O desejo de tentar o reencontro. O fracasso. O abandono definitivo. Todos esses momentos, diz o diretor José Fernando de Azevedo, desdobram-se como estações. E, em cada uma delas, certamente será possível reconhecer rastros de discursos comuns a todos aqueles que amargaram uma desilusão amorosa.

Não é, contudo, no fracasso que os atores Sidney Sampaio e Lucélia Sérgio estão interessados. Se existe luto e dor nesse desvencilhar-se do outro, esse também pode ser um momento de abertura, de descoberta do novo.

Ao menos é essa a proposição que os intérpretes levam ao palco. "A separação surgiria como um ensaio para a novidade", sugere Azevedo.

Amparado na pretensa contradição - entre fim e começo - é que o grupo instaura o jogo cênico. Para movimentá-lo, surgem lastros de livros, como o onipresente Fragmentos de Um Discurso Amoroso, de Roland Barthes, experiências pessoais do elenco e também depoimentos colhidos sobre o tema.

Munidos de uma pergunta trivial - Como os seus pais se conheceram? -, os intérpretes foram às ruas. Suscitaram questionamentos sobre a origem dos entrevistados e as histórias de amor em que já nasceram enredados.

Histórias que, inevitavelmente, se repetem. Que invariavelmente esbarram em clichês. E quando exibidas em cena, só reforçam a ideia de que todas as palavras já foram ditas sobre o tema.

Mas o que importa, nos lembra o diretor, não são as palavras que parecem iguais. Nem os episódios tantas vezes revisitados, na vida real e na ficção. Nessas narrativas que se embaralham para compor a dramaturgia de Além do Ponto ganha enlevo o lugar da enunciação: quem diz, como diz e, principalmente, como será capaz de reinventar o mesmo.

Além do Ponto - Teatro Ágora (Rua Rui Barbosa, 672, Bela Vista). De quinta a sábado às 21h e domingos às 20h até 13 de março. R$ 15 e R$ 30. Informações: (11) 3284-0290

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