Divulgação
Divulgação

'Crescimento não é desenvolvimento'

Sua saga Mar de Papoulas usa um navio, Ibis, numa viagem entre o Oceano Índico e as Ilhas Mauritius. Foi sua intenção transformar o Ibis numa metáfora da diáspora indiana?

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo,

12 Abril 2011 | 06h00

Mar de Papoulas foi parcialmente inspirado em fatos históricos. Gastei muito tempo examinando listas de tripulantes de cargueiros como o Ibis. Navios como esse eram frequentemente capitaneados por europeus - brancos - e tripulados por marinheiros de vários lugares - Pérsia, África Oriental, Tailândia, Indonésia, Índia - que ficaram conhecidos como "lascars" (palavra persa para soldado, guarda ou marinheiro), termo cunhado pelos portugueses. Havia também os trabalhadores braçais indianos, que formavam um grupo bem heterogêneo. Na verdade, o mundo marítimo do século 19 era incrivelmente diversificado e cosmopolita. Herman Melville, mais que qualquer outro escritor, entendeu essa diversidade e a celebrou. Então, o Ibis não é uma metáfora mais que qualquer outro navio de seu tempo.

Desde seu primeiro livro, O Círculo da Razão, há sempre um órfão como personagem. Nesse, o órfão era Alu, em sua jornada entre dois continentes. Em Mar de Papoulas, temos Paulettte, a órfã francesa. O que a figura do órfão representa para o senhor?

Sempre tive interesse em personagens que são jogados no mundo e traçam o próprio destino. Órfãos, naturalmente, se encaixam perfeitamente nessa situação.

Parece que o propósito de Mar de Papoulas, como em In an Antique Land, é o de expor os laços inseparáveis que mantêm culturas como as da Índia e China. Como o senhor vê o futuro que, parece, será dominado por esses dois emergentes?

Você tem razão: os laços entre a Índia e outras partes do mundo são de grande interesse para mim. Em parte, esse interesse foi engendrado pelas circunstâncias da minha vida, por ter morado em diferentes lugares e viajado um bocado. Mas o fato de o passado indiano ter sido negligenciado também ajudou a despertar meu interesse por ele. Agora vivo em Goa, que é ligada ao Brasil por certos laços históricos. Há muitos brasileiros vivendo aqui e fazendo toda espécie de trabalho, como ensinar futebol. É interessante ver como esses laços entre Goa e o mundo lusófono parecem se renovar. Quanto ao futuro, espero sinceramente que possamos ver um mundo mais igualitário. Considero-me privilegiado por ter testemunhado as maiores mudanças que o mundo experimentou nestes dois últimos séculos.

Um de seus livros de ensaios analisa a compulsão da Ásia pelo poder nuclear. Como o senhor viu a tragédia atômica do Japão?

Com horror, como todo mundo. Quando estava escrevendo Countdown, descobri que algumas das usinas indianas estão situadas igualmente em zonas instáveis: uma catástrofe desse porte na Índia poderia gerar uma situação cem ou mil vezes pior que a do Japão. Seria uma espécie de holocausto. E, embora exista quem defenda a energia nuclear como uma alternativa para combustíveis fósseis, me parece que o verdadeiro problema é o crescimento econômico e industrial. As economias dos países não podem crescer para sempre, temos de nos mover em outra direção. Isso é algo que a Índia, a China, o Brasil e outras economias emergentes precisam pensar.

O senhor diz que tudo o que escreve é produto de uma luta com o silêncio. Num livro de ensaios sobre diferenças culturais, fala de regimes fundamentalistas que querem impor silêncio a seus opositores. Como o senhor reage a esses regimes além de sua atividade literária?

Os "silêncios" a que me refiro em meu livro (Imam and the Indian) são produtos de um trauma social (como o da divisão da Índia em 1947), catástrofes (como o tsunami de 2004) e histórias de marginalizados como as dos marinheiros de Mar de Papoulas e dos imigrantes de Maré Voraz. As razões por trás desses silêncios são extremamente complexas e não podem ser atribuídas a regimes específicos. Na verdade, acho que, no mundo contemporâneo, temas como silêncio e liberdade, do modo como são tratados por artistas e escritores, não significam a mesma coisa que no século passado. No século 20, a repressão à liberdade de expressão era atribuída principalmente ao Estado, mas hoje isso é verdade em poucos países, como na China, Síria e Irã. Agora, os principais inimigos da liberdade de expressão são grupos fundamentalistas, movimentos políticos de identidades diversas e grandes corporações, como ficou comprovado na Guerra do Iraque, em que a mídia ficou vulnerável diante dos interesses corporativos, militares e governamentais. As grandes corporações exercem hoje sobre seus empregados uma ameaça tão real como a concentração de meios de comunicação nas mãos de poucos proprietários. Muito do que se vende por notícia, hoje, na Índia, é propaganda paga por indivíduos ou companhias. Isso representa um perigo bem maior que os obstáculos à liberdade de expressão colocados pelo poder do Estado. / A.G.F.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.