Crescem os debates literários em SP

No fim de um evento no Instituto Itaú Cultural, em São Paulo, no dia 19 de novembro, um jovem vestindo camisa regata vermelha se aproxima da escritora Lygia Fagundes Telles, a abraça e se apresenta: chama-se Marcos e tem uma amiga que estuda na França. Nem a roupa informal nem o comportamento surpreendem a autora de Invenção e Memória. O que causa estranheza é uma história contada por Marcos: um dos textos de Lygia é, segundo a tal de sua amiga, estudado na Sorbonne como um "modelo de conto". Lygia escuta - e pensa (ela confessaria depois): "Esse moço é doidão."Enquanto ela se pergunta que problemas neurológicos ele teria, Marcos completa a história: lembra-se de que o texto em questão é A Estrutura da Bolha de Sabão, um dos que marcaram a trajetória da contista Lygia - e publicado com relativo destaque na França. Um afago e tanto no orgulho da autora, que parece tê-la comovido mais ainda que o Prêmio Jabuti, que recebeu em maio.Lygia, neste ano, cumpriu uma longa agenda de encontros com leitores, que agora parecem ter entrado para valer na agenda cultural da cidade. Até recentemente, apenas o Instituto Moreira Salles, ligado ao Unibanco, promovia (com a programação O Escritor por Ele Mesmo) essas reuniões com regularidade, em que o autor de ficção tem de pôr os pés na terra e conversar sobre algo muitas vezes intangível. Neste ano, também o Instituto Itaú Cultural (com o Esquina da Palavra) e o Centro Cultural Banco do Brasil (que realiza suas Rodas de Leitura no Rio de Janeiro há nove anos) passaram a incluir a literatura na sua programação paulistana.Além da disputa por prestígio entre os três bancos, também o shopping center SP Market passou a promover encontros semelhantes, com o nome de O Autor na Praça (também usado para as sessões de autógrafo semanais na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros). É uma tendência clara, que deve se acentuar no próximo ano, mas que, de certo modo, guarda suas contradições, como bem observa Ana Maria Machado (Para Sempre): "Não consigo deixar de perceber o paradoxo absurdo que é a multiplicação de pedidos de encontros ao vivo num tempo em que as possibilidades de comunicação tecnológica são tão evidentes e eficazes."Futebol - Os encontros e as tradicionais noites de lançamento não são as únicas atividades a que os autores precisam dedicar-se para seduzir novos leitores - ou, de forma menos poética, reforçar a estratégia de marketing de suas editoras.Recentemente, para lançar uma coleção de 13 títulos sobre times de futebol, a editora DBA fez com que quase todos os autores comparecessem a uma coletiva de imprensa em São Paulo. Estiveram presentes Luis Fernando Verissimo, Roberto Drummond, Sérgio Augusto e Ruy Castro, entre outros (Aldir Blanc se recusou, porque não pega avião). Muitos deles não apenas posaram como se fossem integrantes de um time de futebol, como também vestiram a camisa de suas equipes.O jornalista Lucas Figueiredo, autor do livro-reportagem Morcegos Negros, sobre as relações entre Paulo César Farias e a máfia italiana, costuma dizer que vai a todos os encontros que pode: já falou até num supermercado no Recife, contando com apenas uma espectadora atenta. Num recente debate sobre a contracultura nos anos 70, o poeta Wally Salomão (Algaravias) resumiu essa necessidade de exposição de modo ainda mais direto.Primeiro, reconheceu que um microfone muda totalmente seu comportamento; depois, explicou, ainda que não houvesse nenhum pedido para isso, porque participa de eventos assim: "Mulher da vida tem de estar com a cara na janela."Além de engordar um pouco a renda mensal dos autores (um dos organizadores paga cerca de R$ 500,00 por mais de duas horas de conversa, dependendo do autor), participar desses encontros pode ajudar o escritor a realizar um de seus mais inconfessáveis desejos: encontrar-se com seu público, algo que parece sempre tão etéreo e fluido. Mas também costuma ocorrer o contrário. Nem sempre o auditório se enche. Muitas vezes, a platéia simplesmente não sabe nem quem é o escritor, e a conversa esbarra no mais puro e simples desconhecimento."Encontrar o público é diferente de encontrar com leitores", diz Ana Maria Machado. "Conversar sobre meus livros com quem leu é uma coisa gostosa e interessante; responder a todo tipo de pergunta de quem não leu é outra bem diferente." Ela afirma ainda "que se encontrar com o público, assim como entidade coletiva, é meio invasivo e assustador", mas, apesar disso, aceita participar de reuniões assim "como militante da leitura num país que precisa ler": "Encaro isso como uma responsabilidade social e quase obrigação política."Reclusão - Também ocorre de a conversa sobre literatura simplesmente não andar porque o autor não gosta de falar do que escreve, justamente porque a produção de uma obra literária não passa apenas pelo pensamento analítico e racional.Talvez mais por esse motivo do que pelo primeiro, o escritor português José Saramago, prêmio Nobel de literatura de 1998, durante o lançamento de seu livro A Caverna no Brasil, afirmou que lhe interessa cada vez menos conversar sobre literatura. No seu caso, isso não chega a ser um problema: porque Saramago, um velho comunista, adora falar de uma questão que envolve a todos, leitores de seus livros ou não - a política.Também são notórios os casos de escritores totalmente avessos a esse tipo de relação. Que ninguém espere sentar-se num começo de noite para ouvir Dalton Trevisan (O Vampiro de Curitiba) ou Rubem Fonseca numa dessas salas paulistanas (mas saibam que o autor de O Caso Morel estava em Berlim quando caiu o Muro, em 1989, e concedeu uma entrevista a uma TV brasileira - que foi ao ar, sem que ninguém na emissora se desse conta de quem se tratava - como se fosse um cidadão comum, chamado José Fonseca). Os dois portam-se de modo completamente diferente de Deonísio da Silva (Os Guerreiros do Campo) e Ignácio de Loyola Brandão (O Verde Violentou o Muro), que chegam, nas Jornadas de Literatura de Passo Fundo, a comandar platéias de 4.000 pessoas, com a maior naturalidade.Mesmo para quem gosta de falar com os leitores e com o público, os encontros são, freqüentemente, desgastantes. Antônio Torres (Meu Querido Caníbal) costuma contar que, neste ano, participou de tantos que não conseguiu escrever nenhuma linha - e que, no ano que vem, terá de reservar um tempo especial para voltar à sua atividade principal. Saramago passou pelo mesmo problema depois que recebeu o Nobel. Lygia diz que tem a sensação de estar se "distribuindo".Pode ser difícil, mas não se compara a uma aula tradicional. É o que afirma Menalton Braff (À Sombra do Cipreste), que recebeu o Grande Prêmio Jabuti de 2000. Professor de literatura de escolas da região de Ribeirão Preto, ele diz que gosta das conversas. "Quando se dá aula de literatura, fala-se a um grupo que se reúne por uma incômoda necessidade (passar no vestibular) e é difícil transformar isso em encontro prazeroso - trabalho sempre com esse objetivo, mas reconheço que o sucesso é apenas parcial." E, ainda que o público não conheça o autor, a essência muda: "Quando o autor fala de sua obra, em geral, é para um público espontaneamente reunido por um interesse bem específico sobre o assunto." A participação do público, neste último caso, é sempre mais receptiva, diz Braff. "É inimaginável um caso de indisciplina, por exemplo." Mas ele também não está seguro de que será sempre assim: "Ainda não tive a experiência de contar com algum desafeto (literário) entre o público. E eles fatalmente existem."

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