Crescei e multiplicai

Não existe prazo de validade. Ninguém sabe ao certo quando começa e por quê. Pode vir acompanhado de um grande trauma ou uma decepção irrevogável.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

O imbróglio simplesmente aparece e desespera alguns casais. Não há lei que o impeça.

Foram alertados na cerimônia religiosa. Sede fecundos, prolíficos, crescei, multiplicai e enchei a Terra.

"Que o marido cumpra seu dever em relação à mulher, e igualmente a mulher em relação ao marido. A mulher não dispõe do seu corpo, mas sim o marido. Igualmente o marido não dispõe do seu corpo, mas sim a mulher. Não se recusem um ao outro. Coríntios sete", alertou o padre.

No entanto, para alguns casais, surge uma indisposição noturna: os corpos não estão dispostos, um recusa o outro. Se a exceção vira rotina, a crise se instala.

Os primeiros informados são os amigos mais próximos. Com um questionamento aparentemente banal, entre o prato e a sobremesa: "Qual a frequência para um casamento saudável?"

Depois do café, ao pedir a conta, vem o desabafo que coloca pingos nos is: "Nós não transamos mais."

Os amigos sempre partem para o defesa da transparência: "Vocês já conversaram sobre isso?"

Sim, já conversaram, se perguntaram, procuraram explicações, deram até um Google, em busca da cura, estatísticas e palavras de especialistas tarimbados em revistas online.

Já conversaram sobre isso antes de dormir, depois de acordar, durante o café da manhã, o jantar, no Natal, carnaval, Páscoa, férias.

E já tentaram fantasias óbvias, como a de se pegarem em espaços públicos e espaços alternativos - debaixo do chuveiro, na escada de emergência, dentro do carro. Já compraram apetrechos de todos os formatos em sex-shops.

Já se escravizaram, algemando o outro na cama. Já se lambuzaram de mel, de sorvete. Tentaram outras posições. Chegaram a assistir a vídeos pornôs, com o pacto de imitarem tudo aquilo que era exibido na tela.

Ambos queriam solucionar o entrave. Queriam um casamento com sexo constante. Se amavam mais do que tudo. Não entendia por que de repente não conseguiam se concentrar. Ou por que riam, quando deviam sentir prazer.

Pensaram até em procurar o padre que os casou. Mas como um homem celibatário, que segue as palavras de Deus, daria dicas que apimentassem a relação?

Seguiram o conselho número dois dos amigos: terapia de casal.

Ele não levou a sério quando se viu, na primeira sessão, ao lado da mulher, diante de um cara numa mesa de escritório com sotaque argentino.

Pois enquanto ela falava sem parar da relação pai e filha, ele só pensava em perguntar se realmente o psicanalista acreditava que Maradona era melhor do que Pelé.

Chegou a desconfiar que o profissional ria internamente das queixas do casal, e se dizia: "Incompetente. Se fosse jo, com esta guapa..." Não voltaram para a segunda sessão, a que começaria a ser paga.

Casa de swing, aconselhou um amigo mais rodado. Demoraram semanas para ir. Ouviram experiências alheias. De casamentos que melhoraram e outros que acabaram depois de uma visita.

Se perguntaram como deveriam se comportar. Se seriam apenas espectadores da proposta inusitada ou se mergulhariam fundo e visitariam todos os ambientes. Juntos ou separados? E o ciúmes?

Foram. Vestiram roupão. Esperaram na sala principal. Observaram casais mais atirados e os contidos, como eles.

Conversaram com um gerente de banco casado com uma operadora de telemarketing, piloto e copilota de avião, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogas e um síndico. O síndico do condomínio deles, que agarrou todas as mulheres, bebeu cinco uísques e os intimidou.

Foram embora, quando um sushiman elogiou as pernas de mulher dele e passou a analisá-las, como se fossem uma tira de salmão cru.

Riram muito na saída. Concordaram que casa de swing é mais broxante do que obra de vizinho. Chegaram em casa, e cada um dormiu no seu canto da cama, como de costume.

Decidiram relaxar. Se amavam. Não se importavam com as consequências daquele celibato que, esperavam, torciam, seria temporário. Decidiram aproveitar o tempo de sobra e frequentar cinemas de arte, exposições de vanguarda e peças de teatro em locais não convencionais.

Jogaram sinuca, dançaram dança de salão, comeram sanduíche grego, se embebedaram, se perderam em estradas de terra, participaram de cultos africanos, se benzeram e nunca foram tão felizes, apesar da falta de sexo.

Falavam sobre isso com tranquilidade. Há no mundo de hoje uma pressão forte para uma vida sexual intensa e, por isso, vazia, concluíram. O hedonismo tira o charme de um casamento, se justificavam, o da cumplicidade sem tamanho.

E viajaram para fora. Israel, Egito, Madagascar, Tailândia. Visitaram safaris, casas de massagem, exibições de técnicas de pompoarismo, daquelas em que expelem dardos e furam balões.

Em Las Vegas, depois de ganharem uns trocos num cassino, entraram numa casa de peep show. O cardápio oferecido: show com aeromoça, enfermeira, colegial, sadomasoquista, dona de casa. Escolheram o último.

Foram encaminhados a uma saleta escura. Enfiaram uma nota de 50 dólares na máquina. Abriu-se a cortina. O cenário, do outro lado do espelho falso, era uma cozinha simples.

Apareceu Susan, uma loirinha que parecia figurante de Baywatch. Que, animadinha, começou a cozinhar e a rebolar. A tirar a roupa e se esfregar em colheres de pau, pepinos e cenouras, se lambuzar com azeite e vinagre. Até parar.

Estranhou o silêncio dos pagantes. Olhou pela fresta do espelho. E viu um casal se amando loucamente. Como se não se encostassem há anos. Como se o mundo fosse acabar em segundos. Foi Susan quem assistiu e se excitou, sem pagar.

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