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Cresce o número de autores latinos na Flip, que começa em 30 de julho

O mexicano Juan Villoro está entre os nomes confirmados da 12.ª Festa Literária Internacional de Paraty

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

04 de abril de 2014 | 22h54

A presença latina sempre foi um dos destaques da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, cuja 12.ª edição acontece entre 30 de julho e 3 de agosto, um pouco mais tarde que o habitual por conta da Copa do Mundo. A novidade é que, desta vez, o número de convidados é mais expressivo e singular. São eles: o chileno Jorge Edwards, a argentina Graciela Mochkofsky, o peruano Daniel Alarcón e o mexicano Juan Villoro. "São nomes que comprovam a força da atual literatura latina", atesta o jornalista Paulo Werneck, novo curador da Flip. "A ponto de críticos americanos observarem que a melhor prosa produzida em seu país atualmente é a que se alimenta de ingredientes latinos."

Conhecedor da área (organizou, ao lado de Davi Arrigucci, uma coleção com autores da região, na época em que trabalhou na Cosac Naify), Werneck revela uma rara sensibilidade para detectar as novas pepitas que despontam. É o caso de Graciela Mochkofsky, que ainda não tem nenhuma obra publicada em português. Na Argentina, ela se tornou conhecida por fabulosos livros de não ficção, relatos de personagens e contextos políticos que, sob sua prosa absorvente, ganharam contornos épicos. É o caso de Timerman (2003), biografia de fôlego de Jacobo Timerman, grande renovador da imprensa argentina dos anos 1960 e 70, quando a moldou sob as regras americana e europeia.

"Na época, anos 1990, eu trabalhava como repórter de política do Página/12 e me interessei em fazer a biografia de Timerman porque era um personagem completo", disse Graciela ao Estado, desde Nova York, onde faz um curso. "Mas, quando descobri suas conexões políticas e econômicas com o regime militar – apoiando diretamente a queda de um presidente civil e logo aderindo abertamente às ditaduras de Juan Carlos Onganía e Jorge Rafael Videla –, percebi que o livro enfocaria o ambíguo papel da imprensa durante o período de exceção."

Com abundância de detalhes e uma escrita formatada como um romance de formação, Timerman logo se tornou um clássico argentino, além de despertar em Graciela um gosto pela investigação da relação entre o poder e os meios de comunicação. Assim, tornou-se natural sua pesquisa sobre a guerra pública detonada, especialmente de 2008 a 2011, entre os governos presidenciais da família Kirchner (Nestor e Cristina) e o maior grupo multimediático do país, o Clarín.

O resultado é Pecado Original, outro notável relato sobre um momento decisivo da sociedade argentina. "O que me interessou foi investigar os motivos de o jornalismo não manter uma posição crítica e neutra, mas de adotar uma polarização nessa guerra contra o governo", comenta Graciela, que mostra como a amizade entre os Kirchner e o grupo Clarín se transformou em ruptura até chegar ao momento em que o governo determina a dissolução do conglomerado de empresas.

"Graciela exibe, em toda sua obra, um notável nível de apuração e de clareza, permitindo que até os estrangeiros entendam todo o intrincado jogo político de seu país", observa Paulo Werneck. "Ela mostra que a vitalidade hispânica também está na não ficção."

Já os demais latinos convidados para a Flip se destacam como ficcionistas – a começar por Daniel Alarcón e sua peculiaridade: apesar de nascido no Peru, passou boa parte da vida nos Estados Unidos, onde ainda mora. "Ele é o melhor exemplo de como duas culturas, a latina e a americana, conseguem se beneficiar do mútuo convívio", comenta Werneck.

Apontado há alguns anos pela revista Granta como um dos 20 autores mais promissores do país, Alarcón já lançou no Brasil, em 2007, o livro Rádio Cidade Perdida (Rocco) e acompanhará agora a chegada de À Noite Andamos em Círculos, a ser editado em junho pela Alfaguara. Em ambos, um interesse pela violência política. "É um tema importante para retratar o que se passou no Peru, durante minha adolescência", disse ele ao Estado, desde Oakland, nos Estados Unidos, onde vive.

Mais que a representação da realidade, Alarcón, na verdade, utiliza a própria literatura como ferramenta para criar sua ficção. Para isso, vale-se das leituras ao longo da vida, desde o russo Turgueniev até o conterrâneo Mario Vargas Llosa, que lhe aguçou a olhar para uma técnica de difícil execução: o jogo com o tempo na narrativa.

Em À Noite Andamos em Círculos, Alarcón mostra a trajetória de um ator, Nelson, que, ao se aliar a uma companhia de teatro, passa a encenar uma peça, O Presidente Idiota, e consegue subir na carreira até que uma inesperada traição coloca a trupe em uma situação caótica. O que torna a narrativa especial é o desafio imposto por Alarcón: uma história contada em retrospecto, o que aguça a curiosidade do leitor sobre o que motivou Nelson a praticar determinadas ações. Mais ainda: diferentes narradores oferecem a sua visão da trama.

"Escrever ficção é como estabelecer um jogo de revelação de informações", conta ele. "Aqui, enfrentei dois desafios: criar um plano de suspense sobre o que teria acontecido a Nelson e, segundo, revelar os motivos da forma como a história é narrada. Tudo isso foi descoberto à medida que escrevia – a questão da voz narrativa não pode ser resolvida nas dez primeiras páginas, caso contrário, não vai funcionar."

Literatura e política sempre se cruzaram também na carreira do escritor chileno Jorge Edwards, cujo livro A Origem do Mundo, de 1996, foi recentemente lançado pela Cosac Naify. Embaixador, ele foi nomeado em 1971 pelo então presidente Salvador Allende como representante do país em Cuba a fim de restabelecer relações diplomáticas com o governo de Fidel Castro. Mas, ao se posicionar contra os abusos em relação aos direitos humanos e ao cerceamento da liberdade, Edwards foi expulso da ilha. Pior: também foi repreendido por Allende e ainda cultivou inimizades entre os pensadores de esquerda.

"Trata-se de um homem adorável que, acredito, certamente vai provocar a mesma comoção que Valter Hugo Mãe", aposta Werneck. "Edwards é um homem interessante, aristocrata, intelectual, além de ter sido amigo de grandes figuras como Cortázar, Llosa e Octávio Paz que, aliás, no prefácio de Persona Non Grata, tratou o livro como um dos mais vibrantes clássicos latinos modernos."

Também o bom humor do mexicano Juan Villoro é uma das apostas da Flip. "Ele está à altura de Enrique Vila-Matas na erudição e na facilidade com que trata a cultura popular", completa Paulo Werneck. Do autor, a Companhia das Letras pretende lançar, em junho, Arrecife, em que um ex-roqueiro, Mario Müller, explora o medo como forma de turismo.

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