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Crer para ver

Um pouco do apóstolo Tomé pode fazer bem a nossa busca de pensamento crítico

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

28 Novembro 2018 | 02h00

Há uma passagem no Evangelho de João que se tornou dito popular. Jesus ressuscitado aparecera aos apóstolos, mas Tomé não estava entre eles. Quando soube da inesperada e insólita visita, duvidou de seus companheiros. Como poderia acreditar que o homem que vira morto estava entre eles? Tomé, o incrédulo, tornara-se a base do nosso “Ver para crer”. Jesus daria nova chance a seu escolhido e apareceu mais uma vez. Na segunda visita, o Nazareno asseverou que, se Tomé vira e crera, benditos seriam os que não necessitavam ver para crer.

Hoje em dia, extrapolando o Novo Testamento, continuamos a ter as duas categorias de pessoa. Ainda há aquelas que acreditam em quase tudo. Não é necessário apresentar dados ou contrapor argumentos. A crença é prévia à visão. No outro extremo, há os desconfiados por natureza. Diante de uma novidade, quero provas de que se trata de um fato e não de um factoide.

A pimenta dá seu sabor ao prato quando pensamos que mesmo uma evidência pode ser adulterada. Historicamente, as falsificações sempre existiram. Caso notório foi a doação de Constantino, documento pelo qual se atestava a posse das terras papais. Ele seria um édito imperial, no qual o imperador romano doava ao papa Silvestre terras por todo o mundo conhecido. No século 15, um humanista, Lorenzo Valla, analisou minuciosamente o texto e percebeu que expressões e sintaxes do latim do documento seriam impossíveis no século 4.º.

O papado não fora pioneiro. Se eu pudesse adivinhar, diria que, em nossa história primitiva, alguém já deve ter feito isso em alguma caverna por aí. No Egito, no 14.º século antes de Cristo, houve uma reforma religiosa e política muito importante. O faraó Amenófis IV decide que apenas o disco solar Aton deveria ser cultuado (e ele, faraó, como representante da divindade solar). A experiência radical foi efêmera. Morto o herético governante, seu projeto foi sendo abandonado em favor de Amon, o velho deus, de seus sacerdotes. Um século depois, Ramsés II mandou expurgar de vez a memória do “herege” antecessor: as imagens e textos mencionando a experiência monolátrica egípcia foram raspados, a capital – já em ruínas – teve suas pedras removidas e levadas para a construção de monumentos a Amon em Hermópolis Magna. Ramsés II, aliás, preferiu colocar seu nome em todas as obras como se fosse o primeiro construtor da história. Inaugurava prática política popular entre nossos dirigentes.

Pulando séculos, vemos na coroação de Napoleão outro “photoshop histórico”. A cerimônia ocorreu em Notre Dame, em 1804, e buscava recriar cenas da Antiguidade, mesclando-a ao rito real do Antigo Regime. Havia, igualmente, intenção de recompor aliança com a Igreja (rompida no início da Revolução Francesa). Jacques-Louis David, pintor oficial, começou a trabalhar na tela que imortalizaria o dia. O problema real pôde ser corrigido: a mãe de Napoleão não comparecera à cerimônia. Era uma gafe familiar. Embaraço? Nada que um pincel hábil e servil não pudesse corrigir: eis que Letizia Bonaparte está lá no quadro, linda e adereçada para todo o sempre, comodamente sentada e tudo vendo da cerimônia que nunca contou com sua presença.

O mundo do poder e da imagem seguiu em frente. São famosas as fotografias de Stalin ao lado de outros membros do partido ou as de Lenin ao lado de Trotsky. Mais famosa ainda é a remoção das personagens indesejadas quando a ditadura stalinista foi se intensificando. Como nos demais casos que apresentei, era o mesmo intuito de manipular o passado para criar um presente mais cômodo. Stalin mandou remover, na ponta do bisturi, desafetos das fotos, forjando novas memórias. É célebre o caso da foto de 1926, tirada em Leningrado, que mostra o homem de ferro ao lado de Nikolai Antipov, Sergei Kirov e Nikolai Shvernik. Há outras três versões da mesma foto. Em cada uma delas, um companheiro a menos. Na última, Stalin estava sozinho naquela reunião. Tente achar Trotsky em uma foto da época da Revolução. Terá de procurar originais nunca tocados pelo regime stalinista. O braço direito de Lenin caiu em desgraça, foi exilado e assassinado. Sua memória, apagada.

Nem as democracias escapam ao controle de imagens e da memória. Donald Trump fez o mesmo inúmeras vezes. Literalmente desde sua posse, quando as imagens oficiais foram falsificadas para dar a impressão de haver mais gente presente do que na posse do antecessor, Obama.

A tecnologia melhora a cada minuto. Logo, avançam as técnicas e possibilidades de alterar uma imagem, vídeo ou texto com o intuito de fazer valer minha versão sobre o passado ou o presente. Assistimos a um Photoshop histórico cada vez mais impressionante. Por outro lado, o mesmo avanço tecnológico, somado à liberdade de imprensa e de acesso à informação, nos dá melhor acesso a outras fontes. Podemos checar cada informação e imagem que recebemos. Em segundos. Se é inevitável cairmos em manipulações, permanecer no chão é questão de opção. Um pouco do apóstolo Tomé pode fazer bem a nossa busca de pensamento crítico. Necessitamos crer menos para ver mais. É preciso ter esperança.

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