Crer em deus como se crê no cinema

É assim que Bruno Dumont avalia a experiência mística de Hadewijch

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2010 | 00h00

Paris, em janeiro. Apesar do inverno ? frio e chuva, quando não neve ?, o ambiente é agradável nas salas que acolhem as entrevistas do Rendez-Vous du Cinéma Français. O encontro promovido pela Unifrance é preparatório para o Festival Varilux que começa hoje em São Paulo, amanhã no Rio e prossegue até dia 10 em mais sete capitais. No total são nove cidades (Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife e Salvador, e as demais) que vão exibir os dez títulos inéditos que compõem a programação (leia quadro).

O melhor ? mais rigoroso ? desses filmes talvez seja Hadewijch, de Bruno Dumont, que passa amanhã, às 14 horas, na Reserva Cultural. O próprio cineasta deveria integrar a delegação francesa que hoje dá uma entrevista na cidade, mas Dumont, à última hora, cancelou sua participação. Para substituí-lo, virá a atriz Julie Sokolowski. Acredite. Ela será uma surpresa. Julie não é atriz profissional. Ela vem da academia, da universidade, e possui um discurso erudito ? puro racionalismo francês ?, raro de se encontrar numa intérprete. O próprio Dumont é de um rigor absoluto. Nesta tarde sombria de inverno parisiense, ele conversa com o repórter do Estado. De novo surge o nome de Robert Bresson.

Bruno Dumont "seria" o herdeiro de Bresson no cinema francês atual. O verbo colocado no passado imperfeito já indica que não é assim. Dumont teria em comum com o autor de Pickpocket e Um Condenado à Morte Escapou a obsessão pelos temas da graça e da permanência do mal no mundo. Ele contesta. Bresson não é, nunca foi, uma referência. Dumont faz cinema, mas não acompanha o trabalho de seus colegas diretores, na França e no mundo. O que os outros fazem, as novas conquistas tecnológicas, não o interessam. Ele persegue ? prossegue ? o seu caminho. Hadewijch é representativo do método do autor. Dumont não escreve propriamente um roteiro. Possuído pelo desejo de realizar um filme, ele o escreve de forma literária, como se fosse um livro.

"É uma forma de penetrar no espírito dos personagens e nos meandros da ação. A escrita me fornece um conhecimento mais aprofundado sobre o que pretendo dizer, ou por que determinado tema me interessa. Meus roteiros são muito literários e detalhados. Escrevo o que sei que não vou filmar." O projeto de Hadewijch surgiu quando Dumont descobriu a poetisa e mística do século 12. Foi a descoberta das visões e da experiência literária e mística de Hadewijch que o levou a querer contar essa história que não se refere muito a coisas concretas, embora, no limite, a vivência da protagonista a leve a trilhar os caminhos da violência ? o terror contemporâneo. Dumont diz que não é místico no sentido de "crente", mas que é impossível fazer cinema sem ser possuído por um sentimento particular.

"Há uma dimensão do escondido, do misterioso, do maravilhoso. Iluminar tudo isso, trazer para a tela o que está encoberto faz parte do movimento místico do mundo, que para mim está na origem do cinema." No filme, a garota, Julie, é uma noviça que é orientada pela madre superiora a deixar o convento, para testar sua vocação. Ela se liga a um jovem árabe que tem um irmão que estuda o Corão. A heroína trafega entre o cristianismo e o islamismo. É envolvida numa ação armada. Bruno Dumont abraça a causa do terrorismo? "Não necessariamente, ou não, simplesmente. Mas não seria honesto com meus personagens se não tentasse entender, e expor, seus pontos de vista."

Julie não é crente, mas foi instruída pelo diretor a criar a personagem explorando seu desejo íntimo de amar e ser amada. Assim como a base literária está na origem de Hadewijch, o trabalho visceral da atriz consiste em transferir para Deus uma ilusão que também é necessidade de representação. Hadewijch é radical como outros filmes do autor, A Vida de Jesus e A Humanidade. Como Dumont diz, "pode-se crer em Deus como se crê no cinema". Hadewijch nasceu dessa crença.

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