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'Crepúsculo' com toque de virtuose

Montagem no Municipal reforça plano de André Heller-Lopes de criar um 'Anel' brasileiro

O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2012 | 03h11

Crítica: João Luiz Sampaio

Avaliação: Ótimo

Em O Crepúsculo dos Deuses, segunda das quatro óperas do ciclo O Anel do Nibelungo, o compositor Richard Wagner nos fala de morte e nascimento. O fim da era dos deuses, afinal, é também o alvorecer dos mortais - e de uma ideia de humanidade. É um tempo, aparentemente imutável, sufocante, que se desfaz para que outro tome seu lugar. Um tempo que desconstrói o conceito de divindade - e o entende apenas como reflexo de um poder secular que o homem reivindica para si.

Na montagem estreada domingo no Teatro Municipal, essa transformação é trabalhada à luz de alguns símbolos apresentados pelo diretor cênico André Heller-Lopes em A Valquíria, segunda ópera do Anel, encenada no ano passado no Municipal. O mais significativo deles talvez seja a presença dos ex-votos. Na Valquíria, o salão repleto desses objetos doados aos deuses como agradecimento a graças alcançadas é um ponto de contato entre o humano e o divino e, portanto, da crença em uma transcendência. No Crepúsculo, o alvo da adoração se transforma; os ex-votos agora são objetos a adornar um cenário no qual a única transcendência possível é a da arte - e, portanto, do homem.

Heller-Lopes se propôs a construir um Anel "brasileiro". Da gênese de um conceito de cultura alemã, que está no centro da tetralogia, ele retira elementos que o permitem dialogar com uma investigação da própria ideia de cultura brasileira - e da multiplicidade de influências que a compõe. No Crepúsculo dos Deuses, esse conceito apresentado na Valquíria aparece de maneira mais pictórica e, ainda assim, refinada e decantada, numa alternância entre paisagens urbanas e elementos da cultura popular que rejeita citações meramente folclóricas.

A jornada de Siegfried pelo Reno, no primeiro ato, é bom exemplo do diálogo de referências proposto pelo diretor. A imagem do rio é construída por meio de fitas azuis introduzidas no palco por dois grupos de pessoas: de um lado, retirantes; de outro, figurinos que sugerem a aristocracia. Vestem branco e preto, não se tocam. O colorido evoca o Rio Negro, o encontro de suas águas escuras com as de tom mais claro do Rio Solimões, mas isso importa pouco. Se o rio é compreendido como símbolo da constância avassaladora do tempo, o processo histórico que ele representa na encenação de Heller-Lopes é então o da separação entre as classes, do rico e do pobre, marcante em toda a história brasileira - e que se dilui, no fim da ópera, quando uma sociedade pautada pelo amor e pela redescoberta do desejo se impõe sobre o palco.

Todos esses elementos são trabalhados de maneira próxima ao texto original de Wagner e com enorme virtuosismo, identificado tanto na capacidade de criar diferentes espaços cênicos sobre o palco como em efeitos visuais interessantes, como a projeção que, sobre o corpo do baixo Pepes do Valle, evoca a presença fantasmagórica de Alberich, ou então a coreografia do prólogo, com as normas em ação perante um enorme painel formado de tecidos. Também na cena final é bem realizado o uso de projeções para simular as chamas que destroem o reino dos Gibichungs e, em seguida, a inundação pelas águas do Reno, ainda que o recurso destoe plástica e estilisticamente do restante da produção.

Musicalmente, o Crepúsculo representa amadurecimento com relação à Valquíria, em especial no desempenho da Orquestra Sinfônica Municipal, comandada pelo maestro Luiz Fernando Malheiro, responsável por dar ritmo e senso teatral ao espetáculo, evidenciando o que há de mais interessante em uma partitura híbrida, que propõe novas ideias musicais ao mesmo tempo em que mantém filiação a formatos mais tradicionais de divisão de cenas, sendo capaz de manter o interesse e a coerência ao longo de mais de cinco horas de música.

O pesado papel de Brunhilde se revelou um desafio para a soprano Eliane Coelho, que demonstrou cansaço e dificuldade em lidar com a tessitura em algumas passagens - em especial no trio da vingança com que se encerra o segundo ato. No entanto, momentos como o dueto com Siegfried no primeiro ato ou a Cena da Imolação revelam uma musicalidade que faz dela uma intérprete mais interessante do papel do que a americana Janice Baird, que encarnou o papel em A Valquíria.

Ao Siegfried do tenor John Daszak falta uma leitura um pouco mais nuançada do papel, da mesma forma que o Hagen de Gregory Heinhardt, vocalmente impressionante, perde um pouco da força dramática ao recorrer demais à caricatura. Por outro lado, o Alberich de Pepes do Vale, o Gunther de Leonardo Neiva, a Gutrune de Cláudia Riccitelli e a Waltraute de Denise de Freitas são exemplos de uma caracterização hábil aliada a um excelente desempenho vocal - e o mesmo pode-se dizer do conjunto de nornas (Lidia Schäffer, Keila de Moraes e Janete Dornelas) e ninfas do Reno (Flávia Fernandes, Maíra Lautert e Laura Aimbiré).

CREPÚSCULO DOS DEUSES

Teatro Municipal. Pça. Ramos de Azevedo, s/nº, tel. 3397-0327. 6ª (17) e 5ª (23), 18h; dom. (19) e sáb. (25), 16h. R$ 40/ R$ 100.

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