Craques do intelecto

O intelectual em mais evidência nas duas últimas semanas só publicou, que eu saiba, um livro. Há 11 anos, já esgotado. Não sei se chegou a best-seller; se reeditado agora, provavelmente chegaria, sobretudo se atualizado com o que aconteceu ao autor na última década, culminando com sua consagradora carreira como técnico do time do Barcelona. Por supuesto que falo do catalão Josep Guardiola i Sala, autor de Mi Gente, Mi Fútbol, mundialmente conhecido como Pep Guardiola.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2012 | 03h09

Autobiografia e caderno de impressões sobre o que Guardiola viu e aprendeu jogando como volante e estudando o audacioso e envolvente futebol de dois toques que o holandês Louis van Gaal implantou no Ajax, Mi Gente, Mi Fútbol não encantou apenas os torcedores do Barcelona, mas também escritores ibéricos e latino-americanos aficionados do futebol. Mesmo que não o tivesse escrito, nem publicado aqueles artigos sobre a Copa do Mundo de 2006 no diário El País, Guardiola usufruiria o status de futebolista intelectual.

Muito já se escreveu sobre intelectuais que se amarram em futebol, mas craques que se amarram em livros e ideias continuam à espera de uma recensão.

Jogadores e técnicos inteligentes existem em toda parte, cultos, aparentemente, só na Espanha. Com as exceções de praxe. Tostão é uma delas; idem Beckenbauer, que Armando Nogueira surpreendeu lendo Shakespeare na concentração da seleção alemã, na Copa de 1970 ou na seguinte; o argentino Jorge Valdano, campeão mundial em 1986, leitor de poesia, autor e editor de livros, conhecido como "o filósofo do futebol"; o também argentino César Luis Menotti, técnico campeão do mundo em 1978, que sabe de cor trechos inteiros dos romances de Ernesto Sábato. Albert Camus foi um caso sui generis: um jogador (goleiro) que problemas de saúde desviaram para o jornalismo, a ficção e a filosofia.

Soube da reputação intelectual do ex-técnico do Barcelona (e, oxalá, futuro treinador da seleção brasileira) por intermédio de Enrique Vila-Matas. Também li referências à sua inteligência especial em comentários do escritor mexicano Juan Villoro e do filósofo português Manuel Sérgio. Vila-Matas ficou seu amigo. Guardiola é um dos seus "quatro ases do futebol com tendências intelectuais". Quando se encontraram pela primeira vez, graças a David Trueba (prefaciador de Mi Gente, Mi Fútbol e irmão do cineasta Fernando Trueba), não falaram de futebol, "só de Joyce para cima", segundo Vila-Matas, cujos livros o então jogador do Barcelona confessou haver lido com entusiasmo.

Os três jogadores que fecham o four de ases de Vila-Matas são Zubizarreta (goleiro da seleção espanhola em quatro Copas do Mundo, hoje comentarista de rádio e TV), Pardeza (atacante do Real Madrid e Real Zaragoza, disputou o Mundial de 1990) e Valverde (extrema basco, com passagem por vários clubes espanhóis, inclusive o Barcelona). Todos seus leitores - e também de outros escritores ibéricos e estrangeiros.

Miguel Pardeza estudou direito e filologia na Universidade de Saragoça, na segunda metade dos anos 1990, e escreveu uma tese sobre o jornalista e escritor madrilenho César González Ruano. Ernesto Valverde, artista até sem bola, fazia, mas desconheço se ainda faz, exposições fotográficas. A ligação com Zubi (é assim que Vila-Matas trata o aposentado guarda-meta do Valencia) começou numa feira de livros valenciana, estimulada pela convivência com os outros dois craques e por uma disputa com o romancista basco Bernardo Atxaga, para ver quem tem mais jogadores de futebol em seu círculo de amigos.

(O próprio Vila-Matas admite que Atxaga não tem competidores nessa especialidade, mas não sei se ele já apresentou o rival a Guardiola, como prometeu numa crônica.)

Justamente nessa crônica, intitulada "A arte de conhecer futebolistas", Vila-Matas revelou ter sido iniciado nessa arte pelo pai de um colega de infância, que era massagista e se relacionava com uma legião de jogadores. Com o tempo aprendeu que o segredo é ter paciência e não querer intimidades com muitos jogadores, só alguns e bem escolhidos. Já tinha 18 anos quando apertou a mão do primeiro astro da pelota, Samitier, "El Mago", mítico meio-campo do Barcelona nos anos 1920-30, já então treinador, que o pai lhe apresentou num restaurante. Na mesma época conheceu o húngaro Kubala e o argentino Di Stéfano, ambos encerrando carreira na Espanha.

Um dia, ao descer La Rambla, avistou o lateral Flotats, ídolo do Barcelona na década de 1950, o único que conseguia anular Gento, o velocíssimo ponta-esquerda do Real Madrid. Embascado, tietou sem o menor pudor: deteve o jogador, apertou-lhe a mão e ousou perguntar-lhe para onde ia. "Isso não lhe diz respeito", respondeu Flotats, com um sorriso amável, e seguiu seu caminho.

Foi a partir de um jantar com Pardeza, facilitado por um grupo de amigos de Saragoça, que Vila-Matas decidiu concentrar seu interesse em "futebolistas intelectuais". O encontro foi caloroso, lembra o escritor, mas algo desajustado ("lleno de despropósitos", em espanhol). Pardeza só queria conversar sobre a nova narrativa espanhola e seu fã, a respeito de futebol. A certa altura, como Vila-Matas insistisse em lhe dar conselhos sobre a melhor maneira de furar a defesa do Barcelona, o atacante puxou um metafórico cartão amarelo, e disse: "Desculpe, mas eu não sou Van Basten".

Para você, que eventualmente pode entender mais da nova (e da velha) narrativa espanhola que de futebol, explico: Van Basten era um atacante holandês, que, jogando no Ajax e no Milan, suou muito a camisa para furar a defesa do Barcelona.

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