Cortejo contido da dor de viver

João Carrascoza expõe o sofrimento do cotidiano

Beatriz Resende, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2010 | 00h00

Espinhos e Alfinetes é mais um livro de contos de João Anzanello Carrascoza), paulista de Cravinhos (1962), fiel ao gênero desde 1994, quando começa a publicar. Ainda que tenha escrito romances dedicados ao público bem jovem, Carrascoza faz muito bem em manter-se contista e, mais ainda, em diminuir, secar suas narrativas, neste pequeno e deslumbrante livro, capaz de desassossegar qualquer leitor com suas breves 110 páginas.

Alfinetes e espinhos não existem para ferir ou machucar, ao contrário. Os espinhos querem defender fragilidades, belas como a das rosas, dos predadores, dos perigos. Os alfinetes devem ajudar mãos que costuram, facilitar-lhe o trabalho e não espetá-las. Podem, no entanto, ferir de repente, numa dor tão aguda como inesperada. Uma dor que não é trágica mas que pode permanecer, parecendo, quando surge, quase intolerável. Só que não é. Sobrevivemos a essas dores, ao sofrimento que ela nos provoca.

As narrativas do livro falam, quase sempre, de perdas e danos vindas de relações feitas de ternura ou sentimentos semelhantes. Privações reais ou apenas o medo, terrível, de virmos a sofrer por que o filho cresceu ou o pai se afastou. O medo da perda pode ser substituído pela súbita "realegria", como diz Carrascoza, mas já doeu.

Em sua contensão, alguns contos se aproximam de poemas, sem pudor de construções que alisam a beleza das palavras, dos sons, das imagens, como a abertura antológica de Espinho. "No princípio era o silêncio dos morros, uns de pedra, outros pontuados de capim, e eu não conseguia ver muito à distância, os olhos poucos para abraçar aquelas grandezas." As palavras provocam um saborear demorado à medida que as coisas são nomeadas, grandiosas ou curtas, o tempo todo evidenciadas em contrastes: o belo fora, o sofrimento dentro, sons e luzes de alegria no entorno da melancolia.

O modelo poético se aproxima do dramático nas curtas falas do casal que se separa, sem tragédia, mas com a dor funda e contida inconformada da mulher inconformada que não sabe como poderá viver sozinha. Em Poente, um homem e uma mulher desfazem sua história em comum diante do mar, dentro de um apartamento, enquanto um dia magnífico chega ao fim: "O sol devorava com voracidade os resto das sombras; seu fulgor era uma ordem para que a felicidade tomasse o leme do dia. Como se naquela manhã fosse difícil, quase impossível morrer." O naufrágio da relação se corporifica nas imagens do mar, da areia, da onda, da baía. O luto é inevitável, "areia a secar na ventania", porém não é essa falência que é descrita. A felicidade estava destinada a ser efêmera como a luz lá fora.

O maior desafio que o livro propõe, o combate que o narrador trava a cada relato, é como descrever dores as mais agudas, sem elevar o tom, sem gritos trágicos, sem enfrentamentos melodramáticos. Um grande momento do livro chega, então, com Mar. Um pai, um filho, o mar, o sal. O chicabon primeiro, a prancha de surfe mais tarde: "Violenta a água estala e a alva espuma avança rumo à areia e os olhos ardidos pelo sal." Um pai, o mar, o sal, sem o filho.

Alfredo Bosi já definiu a peculiaridade da escrita de Carrascoza em uma frase quando disse que "O lado de dentro do cotidiano é feito de imagens que vêm de fora". É na banalidade do dia a dia que pode vingar a alegria sem que a percebamos, porque deveríamos ser felizes como as avós deveriam durar para sempre, os filhos só partiriam depois dos pais e o companheirismo simples dos irmãos que vivem juntos seria eterno. Mas a vida não é assim. Diz o autor em Da Próxima Vez: "Depois que crescemos, a felicidade a gente só a tem se o destino se distrair um minuto." Como a beleza do sol com sua luz peculiar se evidencia quando ele se põe, a simplicidade da vida partilhada, do carinho quase óbvio entre pais e filhos, da alegria fácil do samba cantado pela mãe tudo isso só é realmente percebido quando chega a hora da dor. Ou depois dela, na solidão de que não se pode escapar, no sofrimento por que não se espera.

A tristeza que Espinhos e Alfinetes corteja em ritmos diferentes a cada conto, na simplicidade das situações vividas antes ou depois do sofrimento, na humildade que cenários exuberantes impõem aos que por eles se movem, é um dos mais fortes desafios que uma obra literária pode enfrentar. Por que partilhar com o autor de tanta tristeza? Por que suportar a lembrança de nossas próprias ruínas ou sufocar pelas que virão em vez de buscarmos nos distrair delas? Por que atravessar contos onde tudo dói, a vida dói, a natureza dói?; "O Sábado amanheceu com chuva e um vento sólido de doer o corpo".

Se houver resposta possível, ela estará numa pergunta, aquela mesma que Jean-Paul Sartre já se fez: Por que literatura?

A nós, leitores, só cabe torcer para que João Anzanello Carrascoza tenha persistência de permanecer contista com este destemor que exibe de trazer outras formas para dentro de suas curtas narrativas.

BEATRIZ RESENDE É PROFESSORA DA UNIRIO, COORDENADORA DO FÓRUM DE CIÊNCIA E CULTURA DA UFRJ E AUTORA DE CONTEMPORÂNEOS: EXPRESSÕES DA LITERATURA BRASILEIRA NO SÉCULO 21 (CASA DA PALAVRA)

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