'Corruptos! As mães tb goz...'

Talvez o pixo-manifesto tenha ficado obsoleto. Tuita que mais gente vê

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

11 Março 2017 | 02h00

Foram inúmeras as pichações que fiz na vida com uma turma de jovens militantes, provocadores, poetas, performáticos. Intervenção urbana era nossa missão, nossa via de comunicação, para agregar idealistas contra a sociedade conservadora. O símbolo dos anarquistas eu fazia de olhos fechados.

Minha favorita: “Pela Liberdade de Expressão”. O regime militar se esfacelava. Das pichações-manifesto, “Abaixo da Ditadura!”, “Fim da Censura!”, “Anistia Geral”, surgiram as pichações provocativas. Minha favorita: “Rendam-se Terráqueos”.

Surgiram os grafites em paredes e postes, como os de Alex Vallauri, um pioneiro que usava fôrmas de placas em PVC. Grafitou bidês (influência óbvia), secadores de cabelo, televisores, botas. O kitsch passou a fazer parte do visual urbano de uma esquina qualquer. 

Araras apareceram defendendo as Diretas. Me pergunto se os donos dos imóveis grafitados, a maioria nos Jardins, chamaram a polícia. Ou se protegeram aquilo que no futuro seria uma obra de arte valiosa.

Vieram esqueletos, telefones, luvas, Mandrake, Freddie Mercury, Madonna, até a que ficou mais famosa, Rainha do Frango Assado, um franguinho de padaria em colunas gregas, colorizado em camadas, arte de rua pronta para ser digerida, sobre arte clássica da Antiguidade. 

Nada resta nas paredes. Alex é idolatrado. Suas placas são expostas em museus. Como os grafites de Keith Haring, que veio ao Brasil. Era desconhecido lá e aqui. Fez um grafite enorme na Avenida Sumaré, no muro da Conecta, produtora de vídeo independente, que o entrevistou para a TV Gazeta; o vídeo, com um adorável e blasé Patrício Bisso, está no YouTube.

 

Keith, junto com Basquiat, virou o maior nome da arte de rua. Se as autoridades de São Paulo da época previssem, teriam um patrimônio de valor incalculável na via expressa da zona oeste, que, óbvio, foi apagado. Autoridades que foram eleitas graças aos primeiros “pixos” que pediam a volta da democracia e da liberdade de expressão.

O pixo extrapolou. Donos de estabelecimentos e casas se revoltam com letras e rabiscos que nada mais são do que a assinatura de um pichador; parte de um narcisismo e da necessidade de autoafirmação que a solidão urbana alimenta. Pichadores deixaram sua marca, seu logotipo, em pontes, monumentos, até sobre grafites, em portões, levantando ira de parte da população. É arte marginal da periferia, defendem os defensores. Mas por que na minha propriedade?, perguntam os atingidos. 

O número que identifica os jogadores da camisa do Corinthians segue a fonte padrão “pixo” em homenagem à massa de seus torcedores. Sou marginal, sou herói.

O que é arte e sujeira passou a ser questionado. O que é arte e rabisco? O que é a arte e o nada? Discussão nada nova, objeto de inspiração de surrealistas, Duchamp, Man Ray, Pollock, Warhol, Lichtenstein, da Pop Art. Parte da cidade não está a fim de entrar no mérito. Quer o aparelho repressivo em ação. Parte da cidade quer uma cidade dita limpa, apesar do caos arquitetônico e de mau gosto que marca São Paulo. Quer seus imóveis sem interferências.

As autoridades interessadas em índices altos de aprovação se propõem a combater o que, subjetivamente, consideram sujeira. Passaram uma camada de tinta por cima de lixo e de arte. Não se interessaram pelo diálogo democrático. Nem em ouvir os interessados. Nem em conhecer experiências anteriores de separar um espaço público para manifestações dos artistas de rua. Passou-se a multar e prender pichadores.

Maira Pinheiro, estudante de direito da USP, 26 anos, foi presa pela GCM (Guarda Civil Metropolitana). Pichava “Corruptos! As mães tb goz”, quando foi flagrada. Segundo ela, “passeou” com a viatura pela madrugada. Disseram que iam acabar com a sua vida. 

Prestou um depoimento online, que diz que sua prisão faz parte de um projeto de cidade higienista, para perseguir a cultura de rua, numa repressão desproporcional, que quer criminalizar a juventude.

“O que está em discussão é a liberdade de expressão, ocupação do espaço público e da cidade, da cultura de rua, periférica, contra um prefeito que se coloca na posição de poder definir o que é lindo e o que não é, segundo parâmetros ideológicos da classe dele e da que representa.”

Os que discordam dela, lembram-se do dentista negro Wellington Silva, morto em agosto de 2016 na zona norte, quando foi tirar satisfações de um grupo que pichava a sua casa. Seu pai, o aposentado Manuel Antonio da Silva, teve o braço amputado depois de ser agredido pelos pichadores. Os suspeitos foram identificados. Três estão foragidos. Um deles era um bandido e já tinha passagem por homicídio, Adilson Nascimento dos Santos.

A Justiça aceitou a denúncia oferecida pelo Ministério Público, tornou réus os seis pichadores e decretou a prisão preventiva de todos. O promotor José Carlos Cosenzo acredita que os foragidos estejam fora do Estado. O muro da casa da família Silva voltou a ser pichado meses depois. E a notícia está fora do noticiário.

O spray de tinta que derrubou a ditadura é o mesmo de Maira e Adilson. Nenhum dos dois processos fará com que o spray silencie. Maira, apesar de ser suplente a vereador do PT em São Paulo, questiona a eficiência do Estado democrático. Ela foi presa sem completar uma frase. Três dos assassinos do dentista, um deles já condenado por outro homicídio, continuam em liberdade.

Maira, escrever numa parede tem a mesma visibilidade que numa rede social? Talvez o pixo-manifesto, numa democracia, tenha ficado obsoleto. Tuita que mais gente vê.

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