Rogério Ortiz/Divulgação
Rogério Ortiz/Divulgação

Corpos que tiranizam os olhares

Lugar do Outro propõe reflexão a 32 espectadores tirados do anonimato da plateia

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2011 | 00h00

Mesmo sabendo, não é sempre que nos lembramos que o ponto de onde se avista o espetáculo faz toda a diferença no que dele se percebe. Assistir Lugar do Outro é viver no corpo essa experiência de forma muito clara.

Acomodada em oito plataformas móveis, cada qual com quatro assentos, a plateia vai sendo deslocada pelo espaço vazio do quarto subsolo do Sesc Pinheiros, onde a Cia. Damas em Trânsito e os Bucaneiros apresenta, até 14 de setembro, seu novo espetáculo, às terças e quartas, às 21 horas.

Trata-se de uma experiência oferecida a somente 32 espectadores por noite. Nela, a reflexão sobre o lugar que o outro ocupa se instaura já no momento em que, ao sentar-se, você deixa de ser plateia anônima, e torna-se parte de um grupo. A você e seus companheiros de plataforma serão ofertadas as mesmas oportunidades e as mesmas perdas na observação do que vai se passar. Somos "depositados" por um tempo em um lugar, e depois empurrados para lá e para cá, em um roteiro que vai armando e desmanchando formas distintas de espacialidades, mas sem mexer na relação palco-plateia, que permanece lá, mesmo não existindo um palco formal. A plateia passa a fazer parte, mas somente como parede móvel a delimitar as formas que o espaço vai tomando.

Ao contrato de observador de fora que a plateia geralmente estabelece nos teatros, aqui soma-se um outro traço, o da passividade: nós sentados e sendo conduzidos para onde não escolhemos, em um roteiro já determinado do que e de como vou ver. A mobilidade imposta às plataformas-riquixás edita o olhar de seus "passageiros", que se tormam corpos-câmeras, enquadrando a dança que se oferece. Uma desconfortável relação de poder se escancara: vestidos de preto, como os manipuladores de teatro de bonecos ou de sombras, trabalham duro empurrando os pesados "riquixás", aparentemente submetidos a essa função. Todavia, o que fazem em nós, tiraniza nossa percepção. Quem escraviza quem?

Em Lugar do Outro, a companhia não abandona seu interesse em continuar a explorar a relação corpo-arquitetura-som a que chama de "dança de ocupação", pois ocorre em espaços abertos. Em 2008, por exemplo, com Puntear, transformou muretas, jardins e escadas da Casa das Rosas em cenário. Todavia aqui, o foco se adensa em um ponto específico: pergunta sobre a possibilidade do viver isoladamente, e vai montando diferentes tamanhos de distâncias entre os 32 da plateia, entre cada um deles, entre nós e a obra.

Uníssono. Enquanto cada qual está sozinho, faz algo singular, mas quando os quatro intérpretes se reúnem, transformam-se em um uníssono de uma mesma coreografia. Nesse momento, o jeito próprio de dançar se atenua, como se não fosse possível mantê-lo quando se está junto, ecoando, aliás, o uníssono dos conjuntos em que a plateia foi transformada. Não surge nenhum traço da multidão, aquele tipo de agrupamento estudado, entre outros, pela dupla Antonio Negri-Michael Hardt, que publicou, em 2004, um livro sobre o assunto.

A companhia nasceu em 2006, dentro do Estúdio Nova Dança, o endereço, na cidade de São Paulo, da geração que descobriu, nos anos 1990, a improvisação como possibilidade de dramaturgia para a dança. Como uma das suas representantes, carrega traços da deficiência estrutural desse segmento, que é a falta de entendimento sobre o que seria o rigor artístico necessário para a sua produção.

No caso do Lugar do Outro, o elemento mais vulnerável está na escolha dos materiais que dançam. O elenco dança de forma competente, e com uma sintonia segura, indispensável para a linguagem da improvisação que emprega. A questão não está em como dançam, mas no que dançam.

Dirigidos por Alex Ratton Sanchez com clareza e pertinência, os quatro intérpretes tocam instrumentos, fazendo parte da ótima trilha de Gregory Slivar - lotada de rastros, sobretudo de Smetak (1913-1984), músico suíço que se mudou para o Brasil em 1937, e foi transformado pelos tropicalistas em uma referência. Trata-se de uma soma de talentos que demonstra poder ainda bem mais do que o que apresenta agora. E o comprometimento de todos eles é o fiador de que muito em breve, estarão no lugar de destaque que já demonstram merecer.

LUGAR DO OUTRO

Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, telefone 3095-9400. 3ª e 4ª, às 21 h.

R$ 2,50 a R$ 10. Até 14/9.

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