Corpos que bordam nas linhas de bispo

Corpos que bordam nas linhas de bispo

Numa costura de precisão e requinte, a Cia. Mimulus traz Por um Fio

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2010 | 00h00

Crítica:

ÓTIMO

Arthur Bispo do Rosário é a inspiração de Por um Fio, espetáculo que a Mimulus Cia. de Dança apresentou no Sesc Pinheiros no último fim de semana. Bispo nasceu em Sergipe, em 1911, e morreu no Rio de Janeiro, em 1989, na Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira, onde esteve internado por diversas vezes, até 1964, quando para lá voltou e permaneceu até a sua morte.

A matéria-prima de seu trabalho vinha do lixo do hospital: sucata de todos os tipos, restos, trapos de pano que eram desfiados e reutilizados nos estandartes e mantos que bordava. Mumificou seus objetos pessoais, como escovas de dente, talheres e tesouras; amontoou em caixas-vitrines o que encontrava, como canecas, garrafas, pentes de plástico e abajures.

O jeito tão especial de Bispo juntar palavras, objetos, tecidos e bordados levou a companhia de Belo Horizonte a procurar fazer o mesmo com a sua dança, o que transformou Por um Fio em um marco de uma trajetória coerente, que o preparou.

Obras anteriores como De Carne e Sonho (2003, a partir do tango), Dolores (2007, sobre o universo dos filmes de Almodóvar) ou Do Lado Esquerdo de Quem Sobe (2009, com a música de Yamandú Costa), indicam que o foco da Mimulus sempre esteve na busca de um vocabulário próprio, que avançasse o que habitualmente se pratica em dança de salão. Agora, não resta mais qualquer dúvida de que está inventando um futuro para a dança a dois. Tudo começou em 1990, quando foi fundada a Mimulus Escola de Dança. Dois anos depois, seus alunos formaram um Grupo Experimental, e dedicaram-se tanto ao projeto, que dele acabou resultando a Mimulus Cia. de Dança.

Elenco. Em Por um Fio, estimulados pelos usos geniais do mais trivial que Bispo fazia, o impecável elenco, formado por Andrea Pinheiro, Bruno Ferreira, Ceres Canedo, Juliana Macedo, Rodrigo de Castro, Murilo Borges, Nayane Diniz e também pelo seu coreógrafo e diretor Jomar Mesquita, nos faz ver o tanto que cabe nessa dança. O material coreográfico produzido é rico, requintado e dançado com muita precisão.

Às vezes, partes do corpo parecem funcionar como a linha com que Bispo vai bordando. Braços tecem percursos para articulações intrincadas, que ecoam nos fios pendurados com lâmpadas incandescentes que, mais adiante, se tornam partners de cada bailarino; pescoços exploram mobilidades inusitadas, expandindo a função de segurar a cabeça; pernas-agulhas vão costurando o espaço com os seus passos, parecendo escritas que estão sendo bordadas. Mais adiante, os próprios corpos dos intérpretes se transformam em vitrines de objetos-corpos acumulados, em um exercício de tradução cênica das obras de Bispo.

Jomar Mesquita, além de dirigir, coreografar e dançar também assina a trilha sonora, criada no mesmo timbre que dá o tom desta nova produção, o da coleta do que está em torno para produzir uma mistura inusitada. Reúne, por exemplo, Adoniran Barbosa (Saudosa Maloca), Zeca Baleiro (Bienal e Minha Tribo Sou Eu), O Rappa (Intro V), Caetano Veloso (You Don"t Know Me) e Chopin (Balada N.º 1).

O duo de Jomar com Juliana Macedo, ao som de Chopin, tem a consistência daquele tipo de momento que ilumina caminhos e aponta para o que pode se desdobrar a partir do que já existe. No seu fluxo de novos encadeamentos, quem sabe venha a repensar o papel masculino na sua dança, ainda aprisionado em um entendimento típico de um tempo que não mais corresponde ao do Mimulus de Por um Fio.

O tempo de agora é o de enfrentar a construção de uma nova dramaturgia, capaz de lidar com o mundo novo que estão a produzir.

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