Corpos quase juntos - e o sublime se faz

Duas pessoas, seis cubos pretos de tamanhos variados, e 24 rodinhas. Com esses poucos ingredientes, a vida lá fora invade o palco. De repente, nos deparamos com fluxos semelhantes aos das metrópoles: uns estancam, outros seguem em direções as mais variadas. Cadeira de Rosas, nova produção do Grupo Musicanoar, formado por Helena Bastos e Raul Rachou, com um material muito claro e apenas aparentemente muito simples, produz metáforas poderosas sobre os modos de viver junto que temos desenvolvido.

Crítica, Helena Katz, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2010 | 00h00

A dupla de "dançarinantes" - assim os nomeia a ficha técnica - organiza um jogo de tensões com os seis cubos que vai se intensificando ao longo da obra. Experimentam modos diferentes de fazer cada um deles se deslocar e, aos poucos, passam a realizar duas operações simultâneas: a de buscar ajustes entre seus corpos e os cubos, e a de riscar o espaço com os deslocamentos que vão inventando.

Em Cadeira de Rosas, o corpo se distende, ampliado pelas experiências com os cubos. Nem o corpo, nem o espaço estão prontos antes de a dança acontecer. É a dança, apoiada pela iluminação sensível de Maria Druck, que vai desenhando o tamanho e o contorno de cada situação. É uma referência ao que cada um de nós faz, na sua vida na cidade. Assim como cada qual produz um mapa particular da "sua" cidade, de acordo com os hábitos de circulação que pratica, cada escolha de cubo, de percurso e do que acontece nessa combinação de ambos com o corpo, faz nascer um certo tipo de espaço e de corpo. Uma proliferação de encontros e afastamentos materializa os "quases" que nos regem: quase nos tocamos quando nos aproximamos, quase ficamos juntos quando estamos no mesmo ambiente.

Cadeira de Rosas traz ar fresco para a cena da dança contemporânea brasileira. Enquanto a maior parte das obras trabalha a articulação entre corpo e chão, Helena e Raul, depois de sua última produção (Vapor, 2009), coreografia na qual os corpos mal se separavam, em exercícios de manipulação que testavam os limites do controle e da dominação, agora não mais se tocam.

Se em Vapor o corpo de um se continuava no do outro, através dos acordos que estabeleciam, agora cada qual parece ocupado com uma tarefa só sua com os cubos. E o corpo do outro se faz presente todo o tempo como um demarcador/estimulador dos deslocamentos que são realizados, atado por um olhar que enlaça um ao outro sem que se toquem.

Do escuro, eles vão sendo trazidos para a luz e, ao mesmo tempo, parece que são eles que revelam a luz que começa, aos poucos, a surgir. Associando-se às linhas que os deslocamentos riscam nas três dimensões da cena, ela também vai dando forma ao espaço que colabora para fazer nascer. A luz ignora as medidas do lugar da apresentação, não o trata como uma totalidade habitada pelos dois corpos. É uma luz tátil, que encosta no corpo como quem precisa reconhecer primeiro os seus contornos.

Um outro tipo de luz vem da dança de Raul Rachou. A dose certa de intensidade de cada gesto tonaliza a precisão do seu desempenho, revelando-o como um dos mais consistentes intérpretes da cena atual. Com poucos elementos e um foco claro no que escolheu tratar, Cadeira de Rosas se destaca da maior parte da produção recente, açodada pela superficialidade dos modos de lidar com o que põe no palco. Com rigor e uma secura que intensificam a qualidade das trocas entre os dois "dançarinantes" e a de cada um deles com os cubos, esta nova produção sugere ter apenas delineado um caminho rico que, possivelmente, continuará a ser expandido. D

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