Corpos frágeis fazem sua confissão

A Cia. Fragmento de Dança surgiu em 2002, dirigida e coreografada por Vanessa Macedo, e conta com a assessoria artística de Ângela Nolf. Sua trajetória demonstra um interesse pela arte confessional, aquele tipo de produção ligado a contextos biográficos. Mas não são quaisquer tipos de relatos pessoais que lhe atraem. Seu foco vem se definindo pelo universo feminino que lida com a dor, a solidão, as impossibilidades, a desolação.

Crítica: Helena Katz, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2010 | 00h00

Seu mais recente espetáculo, Corpos Frágeis, que recentemente se apresentou no Espaço Kasulo e na Galeria Olido, repetindo outra das características que vem demarcando o seu território, apoiou-se em um livro (Corpos Frágeis, Mulheres Poderosas, de Maria Martoccia e Javiera Gutièrrez) - o que deixa ainda mais claro que é a tradução o ambiente no qual a companhia navega, seja procurando construir personagens com o corpo que dança, ou transformando em movimento o que estava no texto verbal.

Todavia, há que sublinhar que o personagem que interessa a esta companhia não é exatamente o do teatro. Não espere encontrar cada uma das nove mulheres de que o livro trata apresentando as suas histórias pessoais em cena. Porque são as dificuldades dos relacionamentos e as variadas formas que o sofrimento toma nelas (e não somente nelas) que lá nos aguardam.

O que mais merece atenção no que Vanessa Macedo propõe é a sua busca em fazer seus personagens existirem a partir de uma movimentação específica da dança. No entanto, ao dar forma para as emoções e sentimentos que vêm habitando suas obras, dessa vez produziu uma coleção de referências saturadas.

Vamos reconhecendo imagens fortemente marcadas pela lentidão, pelo conflito entre o escuro e o claro, entre a força e a fragilidade, com muita fumaça de gelo seco emoldurando a nossa travessia até a obra. Imagens que não conseguem escapar de um certo jeito que se institucionalizou e que enfileiram uma sucessão de lugares-comuns.

Um elenco que se mostra comprometido com o que mostra e uma produção caprichada não conseguem resolver os impasses estruturais das escolhas dramatúrgicas deste Corpos Frágeis.

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