CORPOS, FETICHES E O PODER DA MENTE

Sleeping Beauty, de Julia Leigh, examina o que há de sagrado - ou não - na sexualidade

A. O. SCOTT, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2011 | 03h09

A sexualidade pode ser um enigma - basta perguntar a Carl Jung, o excitado e dividido psicanalista interpretado por Michael Fassbender em Um Método Perigoso; ou a Brandon, o viciado em sexo interpretado por Michael Fassbender em Shame, em cartaz nos EUA. Ou, para aqueles que insistem em explorar as complexidades de eros num novo filme que não seja estrelado por Fassbender, há também Sleeping Beauty, de Julia Leigh, um inteligente e curioso longa-metragem que é em si uma espécie de enigma.

Lucy (Emily Browning) é uma pobre e entediada universitária australiana que garante o sustento por meio de nada românticas ocupações habituais: examinando cópias num maçante escritório, limpando mesas num restaurante barato, oferecendo-se como cobaia humana num laboratório científico. Até que, ao responder a um anúncio num jornal distribuído pelo câmpus, ela é recrutada para um mundo de lucrativos e altamente especializados trabalhos sexuais.

Num resumo como este, o filme poderia parecer uma sombria lição de moral ou uma lasciva aventura de exploração do corpo - e, em alguns momentos, Sleeping Beauty dá algum destaque aos deprimentes e solitários aspectos das circunstâncias em que Lucy se encontra. Mas, com frequência muito maior, a câmera se demora nas formas despidas de Emily, convidando o olhar do espectador a investigar cada centímetro da pele leitosa e perfeita dela. Há sem dúvida certa dose de estímulo sexual implícito nisto, mas a diretora observa o corpo de Lucy e acompanha aquilo que ocorre com ele com um afastamento onírico que é sedutor e inquietante em igual medida - além de um pouco ridículo. Embora o tom geral do filme seja de calma e silêncio, e apesar do ritmo aparentemente sereno e desapressado, Sleeping Beauty é às vezes absolutamente hilário, uma pungente e impassível farsa sexual que Luis Buñuel talvez admirasse.

Depois de uma abrangente entrevista com uma gélida e aristocrática loira chamada Clara (Rachael Blake), Lucy recebe um emprego que combina poses fotográficas em lingerie ao atendimento de comensais. Usando sutiã, cinta liga, salto alto e adornos, ela serve vinho durante um jantar geriátrico, enquanto outras mulheres, de cabelo mais escuro, mais maquiadas e de roupas mais reveladoras, servem codorna e caviar. Mais tarde, Lucy serve conhaque enquanto suas colegas assumem a pose de mobília humana para os convidados. Este quadro da possessão absoluta - no qual homens idosos e ricos se cercam de mulheres complacentes, mudas, quase nuas e muito mais jovens - é menos predatório do que patético.

E, então, Lucy é promovida. Como num ritual, Clara prepara uma espécie de chá narcótico e, enquanto Lucy dorme num quarto preparado com elegância, é visitada por homens que reconhecemos dos jantares anteriores. As regras estabelecidas proíbem as relações sexuais, mas isto pouco ajuda a amenizar a sensação de ameaça e potencial violação.

Os clientes, no entanto, não parecem tão preocupados em recuperar a potência sexual tanto quanto em lamentar a sua perda. O macio, passivo e inexpressivo corpo de Lucy é uma tela na qual eles projetam seus desejos, e o rosto sobrenatural de Emily Browning, de olhos grandes e lábios pesados, transmite mistério e multiplicidade. Ela é uma antologia viva dos arquétipos femininos: ingênua, femme fatale, garota enlouquecida, seja qual for a preferência do freguês.

Percepções. Emily foi alvo de um fetiche semelhante no sombrio e sugestivo Sucker Punch - Mundo Surreal, de Zack Snyder. Mas Julia Leigh, uma romancista australiana que dirige seu primeiro filme, dedica atenção especial à lacuna entre o status de Lucy enquanto objeto de luxúria e o estado dos seus desejos. Trata-se da diferença que distingue uma jovem comum da a visão idealizada (ou abjeta) da feminilidade.

"Minha vagina não é um templo", diz ela a Clara, que lhe sugere o contrário, e não há nada de mágico nem sagrado na maneira com a qual Lucy aborda sua própria sexualidade. Num dado momento, ela quer descobrir o que ocorre enquanto está sob o efeito da poção de Clara e, para isto, compra uma pequena câmera de vídeo. Já sabemos disso, é claro, mas a lacuna entre nossa percepção e a percepção de Lucy enfatiza o segredo mais profundo do filme - ou talvez a sua provocação mais eficaz -, que está naquilo que se passa dentro da cabeça da jovem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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