Janete Longo/AE
Janete Longo/AE

Corpos em um mar suspenso

Nova coreografia do grupo é bem sucedida em seu jogo de cores e texturas

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2011 | 00h00

Começa no pé. Vem dele o movimento que faz do corpo uma haste que o vento curva para trás, quase dobrando, vem dele o jorro sinuoso que o percorre, às vezes como convulsão, às vezes como a marola que vai se alargando até ficar transparente, simulando ser areia. O mar está por todas as partes da nova criação do Grupo Corpo: na trilha sonora, na qual descobriu seu nome (sem mim); no cenário de Paulo Pederneiras, no figurino de Freusa Zechmeister, e no corpo de cada um dos magníficos bailarinos de um elenco para o qual o adjetivo "impecável" não dá conta de descrever a excelência.

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Millôr Fernandes disse que a beleza era a inteligência que tinha ficado para fora. Se fosse necessário escolher uma única frase para associar com essa nova obra, seria essa a mais justa. Sua beleza não se apresenta, ela se espirala, como uma potência da inteligência que a produz.

Na verdade, trata-se de um espiralamento de camadas - uma estrutura instigante. São muitas as camadas, que atravessam de forma indisciplinar a história, atando o século 21 à Idade Média (época em que Martin Codax escreveu as Canções de Amigo que Carlos Núñez e José Miguel Wisnik transformaram em uma trilha espetacular). O vem e vai no tempo é incessante, simultaneamente linear e transversal, e está em tudo: na música, na cenografia, nos figurinos, na coreografia. Ao mesmo tempo em que as referências vão sendo depositadas, transformam-se em seus próprios rastros, e produzem o traço singular de sem mim: a sua textura, que vira o amálgama que tudo reúne.

As geniais "tatuagens" inventadas por Freusa Zechmeister materializam as incrustações que guiam a obra. Não somente as sonoridades vão entrando como cunha, umas nas outras, se abrigando e se disformando em volumes das mais variadas espessuras, como o figurino se torna uma pele que se dilata e se comprime. As "tatuagens" escavam e/ou sobrepõem, travestidas de linhas, as marcas do movimento que o corpo faz. Os kilts (saiotes), vestidos ao final, dão o toque que somente os grandes mestres conseguem: espacializam as volutas e as sinuosidades que estavam agarradas ao corpo, espalham as incrustações pelo entorno, com uma sabedoria capaz de tratar o figurino como continuidade do movimento.

O mar recua, o mar volta. Não mantém seus contornos. Por isso, o mar de Paulo Pederneiras apenas parece ficar suspenso a maior parte do tempo. Ele começa e termina com uma enorme língua-inundação, que lambe o palco como quem lambe o que existia antes para que sem mim se instale e, ao final, limpa o que sem mim deixou para que o futuro possa acontecer. A escultura-cenário-instalação criada por Pederneiras em colaboração com Fernando Maculan, toma formas variadas. Parece o mar visto de frente, por baixo, de cima, por dentro, de longe - a cada momento, uma sutil variação que muda tudo. Parece uma ampliação do efeito dos raios do sol que caem como gotas brilhantes na corcova das ondas, parece uma sucessão de elevações góticas, parece horizonte, tenda, céu. Metáfora para o dentro e o fora sem separação, que existe porque a luz lhe traz definição. Cenário-luz, luz-cenário. Na verdade, cenário-luz-figurino-música-coreografia, um escavando para dentro do outro e amontoando-se nos ecos que produzem.

As cores mereceriam um estudo à parte. O uso dos vários tipos de escuro e transparências, tanto no cenário como nos figurinos, faz com que a pele seja também uma coleção de corais e o corpo, o recife no qual eles se agarram.

Rodrigo Pederneiras nunca tomou tanto de si mesmo. Alterna a canibalização de trechos inteiros com a de momentos pontuais de suas coreografias, sobretudo de 21, Benguelê, Bach, e do próprio O Corpo (2000), obra que a companhia apresenta antes de sem mim. Expõe com clareza que seu vetor de criação, que tem sido o past forward (pegando do passado para seguir adiante), agora incluiu re-apresentações. Como se trata de uma inauguração, ainda receberá os ajustes que mudanças dessa natureza sempre pedem. Quem acompanha a trajetória de Rodrigo Pederneiras sabe que ele continua a mexer nas suas obras depois que as estreia.

Em espetáculos da grandiosidade dos que o Grupo Corpo realiza, o acabamento tem um papel central. É imperativo não esquecer que a eficiência do seu diretor técnico, Pedro Pederneiras, somada à da sua produtora, Patrícia Galvão, e das suas assistentes de coreografia (Ana Paula Cançado, Miriam Pederneiras e Carmen Purri, que também é a diretora de ensaios) garante um padrão, cujo nível de qualidade não cessa de aumentar.

SEM MIM

Teatro Alfa. R. Bento Branco de Andrade Filho, 722, 5693-4000.

4ª, 5ª e sáb., 21 h; 6ª,21h 30; dom., 18 h. R$ 40/ R$ 100. Até 14/8

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