José Luiz Pederneiras/ Divulgação
José Luiz Pederneiras/ Divulgação

Corpo: expansão sem perder as raízes

Em Triz, coreógrafo Rodrigo Pederneiras valoriza a excelência dos bailarinos da reconhecida companhia mineira

Helena Katz, Especial para O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2013 | 02h22

O movimento em estado de prelúdio. O corpo como um alaudista medieval, que toca o prelúdio para preparar a tonalidade. Com um tipo de ataque cuja fúria se tornou caseira, Triz, a mais recente composição de Rodrigo Pederneiras para esse primor de companhia que se chama Grupo Corpo, faz, na sua trajetória de coreógrafo, o mesmo que os gestos que criou com seus 21 muito bem ensaiados bailarinos (fruto, sobretudo, do duelo permanente de Ana Paula Cançado com a perfeição).

Os movimentos vão espetando o espaço, aqui e ali, com a rudeza das pequenas explosões, como se não mais desejassem ou pudessem ser inteiramente controlados. É como se a materialidade da sua dança, depois de tanto se convulsionar dentro de si mesma, se espichasse para escapar um pouquinho, perfurando a superfície que estava bem polida nesses anos todos de praticar um modo de fazer. No já conhecido, circuita conexões-arautos do ainda por existir.

Um movimento escultor de lembranças do que foi discursado até aqui e, ao mesmo tempo, rebentador: linhas em estado de rasgo são ejetadas do corpo quando uma perna insiste em rabiscar por cima de desenhos conhecidos, quando pequenos espasmos inauguram desvios, quando as cabeças agem como braços e os braços como cabeças, conduzindo o corpo, se fechando e arredondando a verticalidade com os seus impulsos. Um plano médio sinuoso se insinua, ainda como garra suave, no mastro sólido que é a língua experiente do pensamento coreográfico de Rodrigo Pederneiras.

Uma mudança, alargando aquilo que melhor ele faz: seus duos, agora se distendem em trios de duos com mais um, e se espacializam como triângulos que tendem para o escaleno (aqueles em que cada lateral tem uma medida diferente).

Isso acontece em um mundo à parte, afilado em preto e branco, em pretos e brancos nus, inventado pelo frescor que não para de brotar da parceria de Paulo Pederneiras (cenário e iluminação, agora assinada também por Gabriel Pederneiras) com Freusa Zechmeister (figurinos). Regido por uma poesia anterior à sua grafia e superior a cada aparecimento, nele, a crueza do chão, diagramado pela luz e pelos escuros, ganha o que o olho vê, mas não existe: o chão se dobra em níveis, um escuro mais escuro cria um degrau.

O rigor da cenografia e da iluminação expõe a impossibilidade de garantir os contornos. Não identificamos com clareza quando as linhas que pendem retas (são cabos de aço pesados) se amaciam em curvas, e demoramos a ouvir a conversa entre elas e as outras linhas que organizam o chão, que também cochicham com as cordas da música de Lenine.

As interrupções laterais - escuros que se impõem sobre as linhas cordas - agem como os braços dos bailarinos: uma segura na outra, circularizando o espaço. E como a conversa com o chão marca essa cenografia, esse mesmo círculo também vai aparecer, desenhado pela coreografia.

O que sai se mistura com o que entra, como se o palco se tornasse somente um hiato entre duas piscadas de olho, flagrando como visível pedaços de um fluxo que continua para onde o olho não acompanha.

Uma terceira abertura, no fundo do palco, tensiona esse espaço sem contorno, que deixa de ter tamanho. Ela mais parece a boca de uma caverna platônica, na qual se projetam as sombras de um futuro. Os presságios que lá acontecem (dentro? atrás?) levam a escrita de Rodrigo Pederneiras para vaguear. Os bailarinos fazem da contagem uma música, a música sapateia: deslocamentos que espinham nossos hábitos cognitivos.

O figurino de Freusa Zechmeister desenha um corpo que se funde no outro, que se gruda ao outro para que ambos possam se pender em duas metades de um só, projetando volumes que desregram. Um corpo? Ainda se pode falar assim neste jogo de incrustação/distensão para olhos e ouvidos agudos que é Triz? Freusa, atualizando naquelas esculturas dos bonecos desportistas, a radical discussão de Kazimir Malevich (1878-1935) sobre o preto e o branco (que ele não fez nestas suas esculturas).

Na segunda trilha que compõe para a companhia mineira (a primeira foi para Breu, em 2007), Lenine se 'grupocorporificou'. Sua música, agora ruminada na mesma lógica, desmonta a necessidade de um pacto. Como se tivesse surgido da mesma ordem do natural que a coreografia, faz-se escutar na dança que cada um deste elenco 'dream team' de bailarinos realiza em cena.

Antes de Triz, eles dançam na terra de Parabelo (1997) - escolha justa porque, mais do que compor um programa de espetáculo, torna-se, ela mesma, um programa de alento da sensibilidade. Saindo dos rubros, desaguamos na transparência dos escuros, e nela, começamos a farejar que algo se forja no que, até então, era a morada do conforto do já saber fazer.

GRUPO CORPO - TRIZ

Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, 5693-4000.

3ª a 5ª, 21h; 6ª, 21h30. R$ 40/ R$ 120. Até 29/11.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.