WILTON JUNIOR/ESTADAO
WILTON JUNIOR/ESTADAO

Corpo de Maria Della Costa será levado para Paraty

Enterro será no cemitério municipal da cidade, junto ao túmulo de sua mãe; atriz viveu por cerca de quarenta anos no município

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

25 Janeiro 2015 | 13h05

RIO - Amigos do meio teatral se despediram ontem da atriz Maria Della Costa, que morreu sábado, aos 89 anos, em velório no Teatro Municipal. Saudada não só como artista, mas como empreendedora, por ter mantido uma companhia e um teatro, ela foi aplaudida por colegas como Nathalia Timberg, Marília Pêra, Ney Latorraca, Edwin Luisi e Françoise Forton.

O caixão seria transferido para a Câmara dos Vereadores de Paraty na tarde deste domingo, 25, cidade do Sul fluminense que Maria amava e onde ela abriu uma pousada há mais de 40 anos (já vendida). O enterro será na segunda-feira, às 11 horas, junto ao túmulo de sua mãe.

Fumante por décadas, a atriz morreu em decorrência de uma doença crônica nos pulmões. A saúde tinha se fragilizado também por conta de uma queda que sofreu na pousada ao cuidar de uma árvore, que fez com que quebrasse um fêmur.

No Municipal, o velório foi singelo, sem a presença de fãs. Fora de cena desde os anos 1990, Gentile Maria Marchioro Della Costa, gaúcha de Flores da Cunha, filha de imigrantes italianos e feita performer no Rio – começou como modelo (detinha o título de “primeira manequim do Brasil”) e show-girl do Cassino Copacabana, além de estrear em teatro em 1944 com A Moreninha – , está mais presente na lembrança do público mais maduro.

“Ela é eterna, não descartável. Queria ver isso aqui lotado. Maria era uma criança, de uma simplicidade moderna”, disse Latorraca, que trabalhou com Maria Della Costa no início da carreira, em 1973, na montagem de Bodas de Sangue, de Garcia Lorca, com direção de Antunes Filho. “As pessoas vão esquecer, mas ela fez história. Se tivesse seguido na carreira, hoje seria uma Fernanda Montenegro, uma Bibi Ferreira, uma Nathalia Timberg. Trabalhou todos os grandes autores e com os melhores diretores”, lembrou Edwin Luisi.

“Maria foi uma operária abençoada do teatro, criou um repertório de muita qualidade. Tinha luz própria e abriu caminhos, com força e dignidade”, elogiou Nathalia Timberg, muito emocionada. Marília Pêra lembrou sua beleza incomum, igualada, à época, à de Tonia Carrero, e o papel fundamental do marido e produtor Sandro Polloni, parceiro de todas as empreitadas desde os anos 1940 até sua morte, em 1995. “Ele foi o grande mentor da Maria, criou uma vida de rainha para ela. Uma mulher humilde, que veio de um lugar muito simples, que nem tinha uma personalidade muito marcante, e que acabou fazendo todos os papéis do teatro”.

A pesquisadora Tania Brandão, autora de Uma Empresa e Seus Segredos: Companhia Maria Della Costa, endossou: “Maria foi a atriz que teve o papel mais fundamental na modernização do teatro brasileiro”. “Ela apresentou Brecht ao Brasil, com A Alma Boa de Setsuan. Trouxe da Itália Gianni Rato, que viria a ser o maior encenador da história do teatro brasileiro, lançou Fernanda Montenegro e Sérgio Britto”, enumerou, ainda, Tania. “Ela tinha vontade de retomar, mas não surgiram oportunidades”.

O colecionador Marcelo Del Cima, a quem Maria doou seu acervo de fotografias e figurinos, contou que a atriz foi convencida a deixar seu refúgio em Paraty em 2012 para cuidar da saúde no Rio. “Ela era muito ativa. Foi muito homenageada em vida, recebeu títulos, medalhas, comendas”. 

Em breve, deve ser lançado o último trabalho de Maria, o filme 1964, de Wladimir Castro, baseado em conto homônimo de Arnaldo Jabor. Gravado em 2009, está sendo finalizado. Outro projeto é um documentário sobre a artista com cenas que sobraram dessas filmagens e imagens de arquivo. / Atualizada às 19h15.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.