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O médico intensivista Miguel Rogério de Melo, na UTI em que trabalha no município de Mossoró, no Rio Grande do Norte Arquivo pessoal

Coronavírus e o esgotamento mental: por que não aguentamos mais?

Cansaço, pressão e medo ainda ameaçam saúde mental, quase um ano depois da pandemia

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2021 | 05h00

Há dez meses trabalhando na linha de frente contra o coronavírus, o médico intensivista Miguel Rogério de Melo perdeu as contas do número de pessoas que viu morrer por causa da doença. “Trabalhar em UTI-covid não é como trabalhar numa UTI comum. A falta de recursos e de material deixa tudo muito desgastante. Em vários momentos da pandemia faltam coisas básicas. E não estou falando nem de aparelhos caros. Faltaram sedativos e até medicações para manter a pressão arterial do paciente em níveis vitais”, relata o profissional de saúde, que trabalha atualmente na cidade de Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte, mas esteve em diversos hospitais do Estado.

Como o Brasil não tem mão de obra suficiente para atuar em Unidades de Terapia Intensiva com essa especialização, Miguel se viu obrigado a continuar trabalhando, mesmo diante de tanto estresse. “Por vezes até pensei em desistir porque não estava vendo resultado. Mas continuei, senão seria pior. Como a demanda de pacientes estava alta e, como a UTI-covid precisa de mão de obra específica, acabei ficando mesmo sem materiais básicos para tratar os doentes. Eu ia trabalhar e saia destruído do hospital. Uma situação desesperadora”, desabafa.

Miguel temia contrair covid-19 e, acima de tudo, transmitir a doença aos familiares. “Essa era a minha maior preocupação. Infelizmente, por estar sempre me expondo, acabei me contaminando, mas tive a forma assintomática e consegui me isolar, longe dos familiares, e evitar que prejudicasse as pessoas que eu amo”, relembra.

Em setembro, quando o número de casos estava aparentemente controlado, o médico intensivista foi ficando mais tranquilo. Porém, com as festas de fim de ano e as férias, momentos em que muita gente decidiu promover aglomerações, e o recrudescimento da doença, as coisas voltaram a piorar.

Agora, o esgotamento mental de Miguel Rogério de Melo é em relação à nova variante, inicialmente registrada no Amazonas. “Quando vi o que está acontecendo em Manaus, fiquei realmente preocupado. Se isso acontecer aqui (Rio Grande do Norte), a gente não tem estrutura! A única coisa que me deixa relativamente aliviado é a vacina que, a despeito das fake news, tem se mostrado bastante eficaz. Em Israel, com grande parte da população imunizada, os efeitos positivos já estão sendo sentidos”, diz.

Na análise do psicanalista Gustavo Alarcão, integrante do Núcleo de Psicanálise do Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria da USP (IPq-HC), vivemos uma dose enorme de frustração, que requer paciência e muita tolerância: “O prolongamento da situação implica na manutenção das dificuldades que passam a pesar cada vez mais. Qual o fim? Que fim? Qual o significado de tudo isso? Como se adaptar mais e mais? São questões que rondam permanentemente”.

Mesmo sem estarmos na linha de frente contra a covid-19, cada um de nós jamais imaginou que, a essa altura do campeonato, ainda estaríamos em sérios riscos. Em quase um ano de pandemia, o Brasil chegou a 250 mil mortes, na pior fase da doença em território nacional. Difícil manter o otimismo diante dos números.

Mais ainda desafiador é manter o equilíbrio emocional. Esgotamento mental é o termo mencionado pela professora Luciana Aparecida de Moraes Correa. Ela trabalha em uma escola do município de Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais. Em 2020, os educadores da cidade começaram as aulas em maio e foram até o fim do ano. Depois de férias de 30 dias, Luciana voltou ao trabalho. “E já estou super preocupada. Em dezembro, eu estava simplesmente um bagaço. Nesse ano, que já começamos desde fevereiro, estou preocupada em como ficarei até julho. O governo liberou as aulas presenciais, mas ninguém mandou voltar porque não dá, o número de casos está aumentando. Além disso, não tem todos os EPIs (equipamentos de proteção) para os professores, os alunos. Como vai ser o distanciamento ou o revezamento das crianças? Tem tantas questões que estão sendo levantadas e que geram ansiedade”, diz.

A neuropsiquiatra Gesika Amorim relata que houve um aumento considerável dos casos de transtornos de ansiedade e do sono desde o início da pandemia. “Tivemos também muitos casos de depressão que acabaram evoluindo para transtornos mais graves, como Transtornos do Pânico, TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) e transtornos psicóticos. Sem falar do aumento do consumo de álcool e outras drogas. Este é o panorama que estamos vendo neste momento”, avalia.

Em dezembro, Luciana sentiu no corpo e na mente os reflexos de incessantes aulas virtuais, a dificuldade de comunicação com crianças que não têm acesso à internet, a necessidade de auxiliar outros colegas a aprenderem a usar as ferramentas digitais de transmissão de vídeo e ao próprio fato de adaptar os conteúdos presenciais para o online. “Comecei a ter insônia. Eu deitava e ficava imaginando tudo o que eu tinha que fazer para o dia seguinte e pensava se aquelas horas seriam suficientes. E nunca eram. Muitos desses trabalhos me tomavam um tempo enorme, justamente por não ter a prática do ensino online. Ficava ansiosa em cumprir os prazos. Não conseguia render e isso me trazia uma sensação de frustração. Me sentia uma fracassada”, lamenta.

A professora também relata sintomas como irritabilidade, cansaço e problemas no intestino por não conseguir se alimentar adequadamente. Como se não bastasse toda a situação, Luciana e demais educadores no Brasil estão sendo criticados na internet por pessoas que alegam que “os professores ficaram um ano sem trabalhar” ou que “no lugar de dar aulas, estão viajando”. São publicações que normalmente generalizam comportamentos.

“Uma informação totalmente sem embasamento, atacando professores e dizendo que nós não estamos trabalhando. Inclusive com ataques nas redes sociais aqui de Poços de Caldas. Os casos foram parar no sindicato e a secretaria de educação teve de se posicionar sobre esse tipo de ofensa aos profissionais de educação”, conta. Uma profissão, que há anos vem sendo desvalorizada no País, não precisaria de mais essa agressão psicológica, sobretudo em meio à pandemia do novo coronavírus.

Esgotamento mental e seus efeitos

Nós estamos exaustos diante da pandemia de covid-19 porque passamos do limite da nossa capacidade de adaptação, para a neuropsiquiatra Gesika Amorim: “Difícil alcançar a resiliência. Fomos sacados da nossa estabilidade emocional de uma forma abrupta e ainda não a resgatamos. Continuamos tendo de nos adaptar às diferentes adversidades a cada dia”.

A velocidade das notícias e as constantes mudanças no quadro geral da doença fazem com que as pessoas se esforcem em busca de sobrevivência. E essa pressão pode nos levar a um alto nível de estresse, um quadro de esgotamento psíquico e físico, inclusive com casos de hipertensão arterial, diabete, agravamento de doenças crônicas.

O psicanalista Gustavo Alarcão lembra que muitos não puderam manter o isolamento social e precisaram se arriscar. “Ao mesmo tempo, aqueles que conseguiram ficar em casa estão se exaurindo. Acabam as ideias, a criatividade, sobrevém tristeza e também raiva diante das impotências e dos limites”.

O especialista dá um exemplo prático sobre a sensação de exaustão. “Faça um teste simples: tente segurar um peso qualquer nas mãos. Você verá que será insustentável. Fisicamente, nossos limites são mais claros, quando o músculo se exaure, o peso cai. Psicologicamente, eles não são tão nítidos”.

Dicas para cuidar da saúde mental em meio à pandemia

Gustavo Alarcão ressalta que, se você chegou ao limite, deve assumir, encarar e se respeitar: “Não há mágica que consiga me fazer ir além. É importante dar um passo atrás, dividir e compartilhar os pesos e recuperar o significado da vida, se possível for. Outras vezes precisamos nos reconfigurar. Temos dificuldade em aceitar nossas fragilidades, carências e necessidades. Gostamos mais de nos desafiar, de bater metas e recordes. Muitas vezes o esgotamento vem de uma negação da própria realidade, literalmente falando. Não somos máquinas e não basta acionar botões e pronto”.

Gesika Amorim dá algumas dicas práticas para manter o equilíbrio, como assistir algo que te dê prazer, ter bons momentos com amigos e família, e usar a internet para consumir cultura. “Manter uma boa alimentação, atividade física, meditação, oração, reiki, qualquer atividade relaxante ou hobby que te faça desacelerar. É necessário se auto regular e, principalmente, nunca ter vergonha de pedir ajuda. Ao menor sinal de necessidade, procure um médico e psicoterapia. Busque um psicólogo, um grupo de apoio e o mais importante: precocemente”.

Diminuir o ritmo não fará de você uma pessoa frágil ou perdedora aos olhos do outro. Seja menos exigente e mais generoso consigo. Expressar e compreender o que está sentindo, contextualizando sua própria realidade, pode ser um caminho mais leve.

 

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Pacientes com fobias ou TOC podem ter quadros psíquicos agravados por causa do coronavírus

Especialistas alertam: quarentena e recomendações de higienização, por exemplo, reforçam comportamentos obsessivos

Camila Tuchlinski, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2020 | 13h23

Imagine o sofrimento daqueles que precisam ficar em quarentena e que têm diagnóstico para Transtorno de Ansiedade Social e Fobia? Normalmente, os pacientes não conseguem sair na rua ou têm sintomas como angústia em locais com muita gente. Com a recomendação para que todos fiquem em casa, o tratamento psicológico e psiquiátrico pode ser comprometido em decorrência do novo coronavírus. Além de fobias, quadros como o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) merecem atenção diante da pandemia de covid-19 anunciada pela OMS. Esta é a constatação feita por especialistas consultados pelo Estado.

Pessoas que apresentam sinais de agorafobia (medo de estar em locais públicos abertos e com grandes aglomerações) podem apresentar o sintoma, vê-lo ressurgir ou mesmo intensificar neste momento, dificultando ou impedindo a saída de casa mesmo em casos de necessidade para quem sofre desse mal. 

“Esse é considerado um dos principais sintomas da Síndrome do Pânico, onde a pessoa sente medo de não ter ninguém para socorrê-la caso venha a sofrer algum ataque. Quem sofre de claustrofobia (medo de estar em locais fechados como aviões, elevadores, salas pequenas) também pode vivenciar novas crises neste momento. São fobias que surgem da percepção da perda de controle, ou de uma necessidade de controle interna que este momento realmente retira das pessoas” afirma o psicólogo Ronaldo Coelho. 

Já um paciente diagnosticado com Transtorno Obsessivo Compulsivo que, por exemplo, tem mania de lavar as mãos em excesso pode ter o quadro psíquico agravado em decorrência da pandemia de coronavírus.

“O paciente que acha que, se tocar um local pode ser contaminado, por exemplo. A gente precisa incentivar ele a ter contato com esse objeto fóbico. O coronavírus vai ser um reforçador desse comportamento. Teve uma paciente minha que chegou no consultório esses dias ela e falou: ‘Não disse que é pra lavar a mão? Agora está todo mundo me ouvindo!’. O problema é que quem tem TOC vai achar que o certo é isso (lavar as mãos em excesso). A gente perde um argumento importante para o tratamento”, avalia o psiquiatra Rodrigo de Almeida Ramos.

O neurocirurgião Fernando Gomes, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), lembra que a preocupação em excesso ocorre na região do córtex pré-frontal do cérebro e pode até fragilizar o sistema imunológico. “Essa região tem conexão direta com hipotálamo, que é uma estrutura cerebral profunda que regula todas as funções vitais e também influencia na imunidade. De forma que o pânico e a preocupação excessiva podem provocar comprometimento deste sistema e enfraquecer a imunidade”, afirma. O especialista recomenda que as pessoas evitem consumir cigarro e café em excesso também. 

Hipocondríacos podem sofrer mais por causa da covid-19?

Os sintomas da hipocondria incluem medo intenso e prolongado de ter uma doença grave e preocupação de que sintomas pequenos indiquem algo grave. A pessoa pode consultar ou mudar de médico com frequência.

Para o psicólogo Ronaldo Coelho, pessoas que sofrem com hipocondria também podem sentir os sintomas da doença sem estarem infectados. “Ou mesmo sentir um medo desproporcional de contrair o vírus e vir a óbito por conta da doença ou da falta de suporte dos serviços de saúde que podem ficar saturados. Este é um momento delicado onde o perigo pode ser visto na saturação da capacidade do sistema de saúde. Sendo assim, é possível que crises se iniciem nessas pessoas ao verem que os governantes não estão fazendo seu trabalho para a devida contenção do vírus”, analisa.

Como profissionais da Psicologia e Psiquiatria devem agir?

O mais importante nesse momento de pandemia, para pacientes com qualquer tipo de transtorno de ansiedade, é a presença constante do profissional de saúde. Alguns psicoterapeutas e psiquiatras estão optando pelo atendimento online para não deixaram de acompanhar os casos.

“O tratamento não necessariamente vai regredir, mas a gente tem que ficar de olho. Nesse momento vivemos uma ansiedade social. E uma ansiedade que está beirando o desespero. Mas isso é da sociedade, da circunstância”, pondera o psiquiatra Rodrigo de Almeida Ramos.

É importante lembrar o paciente que o que está vivendo é momentâneo e que o que está sentindo agora é congruente com a sociedade e não necessariamente está associado à uma doença de base, como as psíquicas que o levaram ao consultório.

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Mais de 50% dos paulistas adultos dizem sentir ansiedade com frequência desde o início da pandemia

Pesquisa revela ainda que, para 39% das pessoas, sentir-se triste ou deprimido passou a ser algo rotineiro durante a quarentena

Karina Toledo, Agência Fapesp

07 de julho de 2020 | 10h00

Mais de metade da população adulta do Estado de São Paulo afirma sentir ansiedade ou nervosismo com frequência desde que a pandemia causada pelo novo coronavírus começou, revela uma pesquisa feita pela internet com 11.863 indivíduos por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Para 39% dos entrevistados, sentir-se triste ou deprimido passou a ser algo rotineiro durante a quarentena e quase 30%, que antes dormiam bem, começaram a enfrentar problemas de sono. Os dados foram coletados entre os dias 24 de abril e 24 de maio por meio de questionário on-line. Em seguida, foram calibrados com base nos indicadores da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (Pnad, 2019) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de modo a apresentar a mesma distribuição por sexo, faixa etária, raça e grau de escolaridade da população paulista.

“Um dos objetivos da iniciativa foi avaliar o estado de ânimo dos brasileiros durante o período de isolamento social e os resultados mostram que, nesse aspecto, os adultos jovens [entre 18 e 29 anos] foram os mais afetados: 54,9% com tristeza frequente e 69,7% com ansiedade frequente, enquanto entre os idosos esses percentuais foram, respectivamente, 25% e 31%”, conta Marilisa Barros, professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp e coordenadora do estudo ao lado de Célia Landmann Szwarcwald (Fiocruz) e Deborah Carvalho Malta (UFMG).

Na comparação entre os sexos, as mulheres apresentaram percentuais bem mais elevados do que os homens: 48,4% se sentiram tristes ou deprimidas com frequência e 60,1% ansiosas ou nervosas, enquanto entre os homens os índices foram 28,5% e 40,6%, respectivamente.

Para 26,5% dos participantes, a saúde como um todo piorou após o início da pandemia. Cerca de 40% começaram a sofrer de dores na coluna e 56,6% dos que já tinham um problema crônico nesse sentido (32,7% da mostra) relataram aumento na dor. O percentual de indivíduos considerados fisicamente ativos (mais de 150 minutos de exercícios por semana) caiu de 30,5% para 14,2%. Por outro lado, o hábito de assistir televisão por três horas ou mais aumentou de 21% para 52% e o uso de tablet ou computador por mais de quatro horas diárias passou de 46,2% para 64,3%.

“O aumento no sedentarismo e no tempo em frente a telas já era esperado, mas o percentual de pessoas com dores na coluna foi algo que nos surpreendeu. Acreditamos que isso tenha relação com as mudanças nas atividades habituais. Mais pessoas passaram a se dedicar às atividades domésticas, por exemplo”, avalia Barros.

A pesquisa revela ainda uma piora nos hábitos alimentares dos paulistas. O percentual dos que comem verduras e legumes ao menos cinco dias por semana caiu de 42% para 35,9%, enquanto o consumo de alimentos considerados não saudáveis (em dois ou mais dias por semana) cresceu: congelados passou de 8,6% para 13%; salgadinhos de 8,5% para 13,7%; e chocolate de 46,5% para 52,7%.

Também foi observado um maior consumo de bebida alcoólica e tabaco no período. “Embora felizmente o número de fumantes em nossa população seja pequeno (15,7% da mostra), 28% deles disseram estar fumando mais cigarros por dia. O aumento foi maior entre as mulheres (31,5%) do que entre os homens (24,3%). Além disso, o percentual foi duas vezes mais elevado entre os que relataram tristeza frequente e três vezes superior nos indivíduos que se sentiam frequentemente ansiosos. Essa mesma relação com o estado de ânimo foi vista entre os 18,4% dos entrevistados que disseram ter aumentado o consumo de bebidas alcoólicas”, conta Barros.

Renda e emprego

Embora questões relacionadas à saúde sejam o foco da Convid Pesquisa de Comportamentos, o questionário on-line incluía questões que permitiram aos pesquisadores avaliar o impacto socioeconômico da pandemia e da quarentena sobre a população estudada.

Ao todo, 55,3% das pessoas relataram diminuição da renda familiar e 6,3% ficaram sem nenhum rendimento. A população mais pobre (renda per capita inferior a meio salário mínimo) foi a mais afetada. Nesse grupo, 9,4% ficaram sem rendimento e apenas 26,4% conseguiram manter o nível de renda anterior à pandemia, enquanto no segmento mais rico (quatro salários mínimos ou mais) esses percentuais foram, respectivamente, de 6,9% e 48,8%. Entre os trabalhadores autônomos, 91% relataram perda parcial ou total de renda.

Em relação à situação atual de trabalho, 3% dos adultos de São Paulo perderam o emprego e 19,1% ficaram temporariamente sem trabalhar. Continuaram trabalhando fora de casa 19,5% e 27,4% aderiram ao home office. Quanto à condição prévia de trabalho, 55,7% dos que trabalhavam por conta própria ficaram sem trabalhar, assim como 26% dos donos de empresas e de trabalhadores sem carteira assinada.

“Já sabíamos que a pandemia está afetando o emprego e a renda da população, mas não estava bem claro em que proporção. Esses percentuais foram mais elevados do que eu esperava”, diz Barros à Agência Fapesp.

A pesquisadora também afirma ter se surpreendido com a alta adesão da população ao isolamento social. Pouco mais de 60% afirmaram ter saído de casa no período estudado apenas para compras em supermercado e farmácia e 15,7% saíram apenas para ir a serviços de saúde.

“Se considerarmos somente os idosos, o percentual dos que saíram apenas para ir a um serviço de saúde chega a 32%. No entanto, 10% das pessoas com mais de 60 anos seguiram levando uma vida quase normal e continuaram a trabalhar fora de casa”, conta Barros.

Quase 27% dos entrevistados disseram ter sentido sintomas de gripe durante o período da pesquisa e apenas 3,6% conseguiram fazer o teste para diagnóstico da covid-19. Desses, 41,5% tiveram um resultado positivo.

De olho nos adolescentes

Com o objetivo de avaliar o impacto da pandemia e da quarentena na população entre 12 e 17 anos, os pesquisadores acabam de lançar a ConVid Adolescentes – Pesquisa de Comportamentos. Assim como a versão anterior, feita com os adultos, o questionário pode ser respondido pela internet e as informações fornecidas serão confidenciais. Interessados em participar podem acessar o link convid.fiocruz.br/index.php?pag=conviteadolescentes.

“Os adolescentes precisarão obter a autorização de seus pais no termo de consentimento para poder participar da pesquisa”, explica Barros.

De acordo com a pesquisadora, o objetivo das duas pesquisas é gerar subsídios para o desenvolvimento de intervenções e políticas públicas que ajudem a minimizar os impactos negativos da pandemia e do isolamento social na saúde da população.

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