Marcos Müller
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Coroas e poderes

A decapitação pela guilhotina foi inventada como modo de decepar justamente cabeças

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2022 | 03h00

Nossos governantes não usam coroas como símbolo de suas prerrogativas, responsabilidades (sempre esquecidas) e poderes (sempre reafirmados). É, contudo, evidente que os líderes políticos de países do “clube atômico” possuem a extremada capacidade de, num conflito com seus pares, destruir o planeta. Algo jamais imaginado por nenhum potentado da antiguidade. Faraó, rajá, papa ou rei divinizado acreditavam, mas sabiam não ter os meios de realizar tamanha façanha destrutiva. 

Afinal, construir pirâmides, palácios, cidades aristocráticas como Versalhes ou Brasília, templos e catedrais, poderia ser perigoso, mas era mais inocente que realizar um pacto atômico concreto com o nosso lado mais perverso.

As coroas simbolizam tipos de poder e salientavam a cabeça – esse topo superior do corpo humano é, na maioria das sociedades conhecidas, o local da razão e o do direito divino do poder da realeza. Tanto que o a decapitação por uma máquina especial, a guilhotina, foi inventada como um modo avançado de decepar justamente cabeças. Justo essa parte do corpo que, com suas tiaras e coroas, revelavam materialmente, como indisfarçáveis emblemas, o absolutismo da aristocracia. 

Escrevo inspirado por um precioso ensaio de Claude Lévi-Strauss intitulado As Joias do Etnólogo, parte do livro Somos Todos Canibais (publicado em 2013 pela Columbia University Press), no qual aprendo que existem “coras abertas” e “fechadas” como parte da hierarquia aristocrática. As primeiras simbolizam o poder imperial e absoluto do rei; as segundas são usadas por condes, duques e marqueses como figuras menores na emblemática das aristocracias. 

Ao descobrir essa distinção de coroas, pensei na quantidade de coroas abertas que teríamos aqui no Brasil, pois como já foi sugerido faz tempo, seria uma repinica coroada. Imaginei também os milhares de coroas abertas a serem usadas pelos governadores, ministros, juízes, parlamentares e altos funcionários a competir com as coroas usadas pelas nossas celebridades, que têm o poder de abandonar toda e qualquer racionalidade.

Imaginei também as desagradáveis disputas eleitorais, nas quais todo um conjunto de “especialistas” (esse neologismo para aspirantes à aristocracia) adota estratégias para seus patronos obterem suas coroas fechadas – essa marca indiscutível de um poder absoluto expresso no axioma de Luiz 14, o rei-sol, pronunciada no dia 13 de abril de 1655, segundo o qual “o estado sou eu!”. Sonho de muitas revoluções que prometeram em ir para frente, mas acabaram andando para trás. Pois perder a coroa é, simbolicamente, perder a cabeça. É justamente assim que estabelece o nosso bárbaro realismo político de vencer de qualquer jeito.

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