Cores sutis do canto

Kristine Jepson oferece leitura impecável de ciclo de Mahler na Sala São Paulo

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2011 | 00h00

No papel, o programa do concerto da Osesp de anteontem na Sala São Paulo era bastante atraente. Inclusive por causa da execução da oitava sinfonia de Dvorák, uma escolha menos óbvia do que a nona, Do Novo Mundo. Mas na prática aconteceu um anticlímax danado. Afinal, um concerto deve em princípio elevar pouco a pouco a voltagem musical, até um ponto culminante, que o encerra. Anteontem, no entanto, o clímax aconteceu no final da primeira parte, com os Kindertotenlieder de Mahler.

Os Quatro Interlúdios Marinhos, pinçados da ópera Peter Grimes, a mais conhecida de Benjamin Britten, serviram para o regente francês Stéphane Denève impor o refinamento adequado a uma escrita orquestral translúcida, com sensuais encontros de timbres entre metais, madeiras e cordas - dá vontade de dizer impressionista, no melhor sentido da palavra. Trata-se de música de alta qualidade e que esconde uma estrutura complexa, apesar de soar transparente. O início do primeiro, Aurora, já evoca o fino trato sinfônico, quando Britten junta flautas e violinos no agudo contrapostos a clarinetas, violas e a harpa, sugerindo as gaivotas e o mar. O caráter descritivo continua nos demais - com destaque para o terceiro, Ao Luar, onde só uma bela combinação de flautas, harpas e xilofone animam uma música estática. Tudo muito bem reproduzido por Denève e a Osesp.

Um excelente começo precedendo o clímax do concerto, que aconteceu na primorosa interpretação da meio-soprano Kristine Jepson dos célebres Kindertotenlieder. O ciclo de Gustav Mahler por si só já constituiria um clímax em qualquer concerto. Mas Kristine, dona de um timbre naturalmente escuro, aveludado e belíssimo, capaz de meias-tintas sutis e por si só já meio tristonho, construiu leituras fascinantes dos cinco poemas de Rückert que falam da sensação de perda e desconsolo irremediável do pai pela morte de seus filhos. Aqui a Osesp e Denève também experimentaram seu melhor momento da noite: a orquestra transmudava-se, diante de nós, em diversificados conjuntos camerísticos pontuando e valorizando cada verso, cada figura melódica dessas canções premonitórias (já que o próprio Mahler também perderia uma filha de 4 anos por escarlatina três anos depois de escrevê-las).

Depois desta performance extraordinária, o público ainda no intervalo respirava o transe de música tão intensa. Mas, na volta à sala, o que no papel era adequado ficou inteiramente deslocado. A simplicidade da oitava sinfonia de Dvorák soava simplória - nada contra a sinfonia, interessante, mas pela sua colocação no programa como finale.

Depois da carga emocional exigida de músicos, cantora, regente e plateia no Kindertotenlieder, parece que todos relaxaram. É até certo ponto normal que isso aconteça, sobretudo numa obra tão impactante quanto aquelas cinco canções mahlerianas. Por isso a execução da sinfonia soou frouxa, morna. O "gran finale" tipicamente sinfônico, claro, puxou aplausos entusiasmados. Mas foi só.

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