Cores e emoções no Afeganistão

Havia gente perplexa no fim da sessão de Os Cavalos de Goethe, domingo passado, no Festival Internacional de Documentários. Alguns espectadores formaram grupos para discutir se o filme de Arthur Omar é mesmo documentário. A polêmica repetiu-se no Rio. Os Cavalos também é um documentário sobre o Afeganistão - e a guerra, mas não é apenas isso. Arthur Omar tem plena consciência de que fez um filme com um partido teórico, para provocar. O próprio fato de haver inscrito Os Cavalos no 16º É Tudo Verdade faz parte dessa provocação. Arthur Omar está enviando ao público um recado sobre a arte de ver cinema - e documentários.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2011 | 00h00

Ao Estado, ele repete a frase de um texto que escreveu para O Globo, no Rio. "Os bons filmes são uma ginástica para os olhos." E é isso que Os Cavalos de Goethe pretende ser, um estímulo para que o público abra seus olhos para as diferenças possíveis do cinema. Neste sentido, vale comparar o documentário de Arthur Omar com os dois filmes de Carlos Adriano que também integram a programação do É Tudo Verdade - Santos Dumont: Pré-Cineasta? e Santoscópio = Dumontagem. Ambos usam o documentário para fazer cinema de invenção, ou experimentação.

O próprio Arthur ressalta - "Carlos Adriano e eu estamos muito próximos nesse tratamento quase arquivístico da imagem, onde um e outro, cada qual à sua maneira, desenvolve métodos para extrair significados ocultos e abrir o potencial da imagem para além de uma leitura imediata. Adriano é fundamental porque reúne, numa só pessoa, o artista e o pesquisador, isto é, de um só golpe, ele aponta para o futuro e para o passado, em seu genial gênero que é o falso-documentário-falso, uma espécie de anti-Triste Trópico", diz Arthur Omar, fazendo referência a seu clássico de 1974.

Os Cavalos de Goethe é o novo desdobramento de uma viagem que Arthur Omar fez ao Afeganistão, em 2002. Seu primeiro produto foi um livro de fotografias, que surgiu no fim do ano passado. Atravessando regiões devastadas pela guerra, mas sem uma pauta jornalística específica, ele se permitiu viajar na emoção, mais do que na razão. O livro trabalha as cores - o ocre do deserto, o degradé de cinzas nas pedras e o azul do céu. Incorpora a antropologia da face gloriosa - tema de Arthur Omar em outras viagens no Brasil -, pela maneira como olha o povo afegão no olho.

No vídeo, Arthur Omar selecionou do Afeganistão um único recorte - o cavalo e o cavaleiro, a relação entre eles no buzkashi. Em 1970, John Frankenheimer fez um grande filme - Os Cavaleiros do Buzkashi, que Omar não conhece - inteiramente dedicado a esse esporte bárbaro. Arthur Omar captou as imagens do jogo com uma câmera muito simples. Reduziu-as ao mínimo. Ao low tech da captação, imprimiu o high tech do tratamento dessas imagens (como Carlos Adriano também gosta de fazer). Influenciado por Andrei Tarkovski, que dizia que fazer cinema é esculpir o tempo, Omar pensou seu material. "Assumi que iria contra minha natureza rápida fazendo um filme lentíssimo, à beira da imobilidade, mas que deveria prender o olho do espectador como se fosse um filme de ação." A experiência sensorial ressalta o caráter documentário de Os Cavalos. "O filme é humanista, nos joga dentro do sofrimento e do êxtase do povo", avalia o autor.

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